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25 de Abril no calendário chinês

25/04/2009

No jantar de velada da Revolução dos Cravos, efeméride comemorada a rigor pela minha família desde que me recordo, não resisti à tentação e, por mais uma vez, em mais um ano, voltei a bombardear os meus pais com a singular pegunta cliché de Armando Baptista Bastos, «Onde é que você estava no 25 de Abril?»

Pelo 10º ano consecutivo, mais coisa menos coisa, obtive as seguintes respostas:

O meu pai cumpria serviço militar no Regimento de Cavalaria nº. 8, na cidade de Castelo Branco. Passou o dia a jogar às cartas…A dose terá sido de tal forma enfastiadiça que ainda hoje, apesar duma ou outra taça conquistada em torneios de Três Setes –  o jogo emblemático cá da terra – é muito raro vê-lo de cartas na mão. Quando o faz, aguenta pouco mais que 3 partidas seguidas. O enfado das cartas, no 25 de Abril de 1974, terá sido de tal forma excessivo que também eu demonstro uma certa moléstia pelo jogo. Ver-me a disputar uma partida de cartas é tão raro quanto ver um carro de matrícula espanhola sem bola de reboque atrás.

Quanto à minha mãe, costurava fechada em casa. Tentava acompanhar cada passo da revolução ouvindo a emissora nacional pelo transístor, (sem êxito “porque estava sempre a passar a mesma música”), com um medo de pelar que “eles”, os da PIDE, irrompessem casa adentro para a “virem buscar”. Desde esse dia que percebeu com que linhas se havia de coser, e, actualmente, sempre que lhe peço que me costure as bainhas dumas calças, é o cargo dos trabalhos… 

Se um dia os meus filhos, ou o António, me perguntarem onde estava eu no dia da Revolução dos Cravos, a resposta óbvia será a de que nessa data  ainda não respirava. Porém, se a questão for feita relativamente ao “25 de Abrul” (mês do cravo[?] no calendário chinês) dir-lhes-ei que estava no Largo Camões, em Lisboa, e que até as televisões o provam:

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P.S. A intenção,  já de si rídicula, de transformar o nome de Salazar em topónimo de rua, inaugurando o espaço ao público  no dia 25 de Abril, não lembra sequer ao diabo. A não ser que muitos, tal como eu, tenham assimilado desde tenra idade a ideia de que Salazar e o diabo são a mesma coisa – mais uma vez a minha avó é a grande culpada por pensar que o diabo é tão só a figura do Salazar, de tridente na mão, com cara e maillot  pintados de vermelho vivo, dotado de um extenso par de chifres e cauda pontiaguda. 

Ainda que esta cerimónia se restrinja à terra natal do ditador da fome e da miséria, só consigo encontrar paralelo na seguinte premissa rocambolesca: inaugurar, por altura do 1º de Dezembro, uma panificadora espanhola numa das naves do Mosteiro de Aljubarrota.

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