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A alegoria da cafurna

30/04/2009

[Assim antecipo, por um dia, o post que visa homenagear todos os trabalhadores da minha terra, em particular os que atravessam condição socioeconómica delicada].

Alguém me consegue explicar porque é que o supermercado minipreço, localizado na Rua Serpa Pinto, em Monchique, ainda continua aberto?

O cenário, dentro daquele espaço, é altamente confrangedor. Entrei com uma lista de compras, saí moído pelo vazio das prateleiras e com as compras por fazer. Aparenta ter sido, em Monchique, decretado recolher obrigatório, em razão de um furacão (coisa pouco provavel à nossa Longitude), ou de um conflito armado.

Em último e mais provável caso, ter-se-á instalado uma onda de receio face aos previstos efeitos pandémicos da Gripe Suína (Mexicana), e todos, antes de mim, se precaveram para uma possivel quarentena, ceifando as prateleiras de tudo o que ali exisitia, abandonando-as à insignificante companhia dos papéis, agora inúteis, sinalizando os preços de cada coisa .

Prefiro, no entanto, avançar com uma explicação mais elaborada, mais lírica, mais filosófica. Numa palavra, mais confortante. O minipreço, despido de géneros alimentares e outros produtos de primeira necessidade, não é mais que a transposição comercial, para os dias de hoje, da aclamada parábola de Platão, a Alegoria da Caverna

Quem vai à cafurna em que se converteu o minipreço, terá atingido finalmente o domínio das ideias, libertando-se assim da caverna inusitada que foi este supermercado, ainda nos tempos (há pouco mais de um ano) em que se chamava Sol & Serra, com uma imensidão de coisas tangíveis amontoadas pelas prateleiras, sombras que tomavamos como reais, criadas por artefactos de ilusões.

Estou confuso. Agora, o mundo ilusório e nebuloso das coisas sensíveis, que me fez estourar rios de cêntimos em pizzas, gomas, pacotes de Conguitos e M&M’s xl, ficou derradeiramente para trás. A dialéctica proporcionada pela alegoria da cafurna, fez-me então alcançar:

  1.  A verdade e o conhecimento absolutos: o minipreço tem os dias contados;
  2.  As portas para o mundo exterior: vou ter que voltar a comprar gomas e conguitos mais caros no Alisuper ou noutras superfícies de Portimão;
  3. Aquilo que mais há para venda na cafurna minipreço, é de borla e ninguém compra, pelo que se acumulam os stocks: tristeza, desilusão e ar por entre os corredores de prateleiras destituídas de matéria;

O pior de tudo, são as pessoas que por ali (ainda?) trabalham, em breve vítimas das ilusões criadas pela ganância de artefactos materiais, priosioneiras duma cafurna sem reflexos chamada desemprego.

Hoje, ao olhar para aqueles seres humanos, lembrei-me da Alegoria da Caverna, mas também do conto de Manuel da Fonseca, Maria Altinha:

«Pareciam Condenados».

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7 comentários

  1. Meu amigo o minipreço so se encontra aberto a titulo de exemplo como nao fazer comercio.
    a malta tambem nao compra la nem o targente da ropa nem comida embalada porque de mini so o nome.


  2. Mas as gomas sempre eram mais baratas.


  3. mas no lidl é muito mais barato pá.
    L – Loja
    I – Internacional
    D – De
    L – Leste
    È só Ucras mas é barato e ainda tens a sorte de ver agumas gajas do ataque e quem sabe mostrante preços


  4. Não o porquê desta vontade de expressar a minha opinião, mas aqui vai.

    Não desejando a desgraça das outras pessoas, nao tenho pena alguma da lenta morte de “tal” espaço comercial.
    “Tal” espaço comercial arrasou a maioria do pequeno comercio de monchique. Se nao levou ao encerramento, levou a reduçao do pessoal.
    Sim, afectou.me ( quase ) directamente, pois a minha progenitora trabalha no ramo e no estabelecimento que ela gere as vendas baixaram cerca de 50%.
    O negócio é assim mesmo, Cabrão! E saber fazer negócio é muito bom. Mas saber aguenta.lo é muito melhor.
    As pessoas vão atras dos preços baixos, mas esses preços baixos sao para um, dois ou mesmo tres produtos, mas precisam sempre de mais alguma coisa. Nessa “alguma coisa” pagaram algo mais do que pagariam n’outro qualquer estabelecimento, e assim iriam pagar, provavelmente, o mesmo que n’outro estabelecimento em que não existissem esses “preços baixos”.
    Não digo que o comercio local não perca vendas com a concorrencia das grandes superficies comerciais de portimao, mas não acredito que os velhotes da zona do Selao ou da Ribeira Grande se desloquem tão longe para serem enganados.
    É verdade que neste Post “puxo muito a brasa á minha sardinha”, mas acredito que muito melhor bem defendido ficou o comércio local Monchiquense.


    • O comércio local já tinha perdido o seu nicho de mercado para as grandes superfícies sediadas em Portimão, muito tempo antes do minipreço aparecer. Exceptuando, como referes, as pessoas mais idosas, das áreas rurais do concelho, toda a gente faz as compras semanais nos hipermercados.

      O conceito de hard discount é tramado: Preços baixos no início, atingindo valores mais altos depois de fidelizada a clientela, sem que esta dê por isso.

      Repara que este post é válido para o minipreço como também o seria se fosse o Alisuper / Chico Feio que estivesse quase a fechar as portas. O que me preocupa são mesmo as pessoas, o resto é o Mercado a funcionar.


  5. […] poucos dias de vida ao Minipreço de Monchique. Hoje pude constatar que as sagradas escrituras da Alegoria da Cafurna  se encontram, finalmente, […]


  6. […] 26/05/2009 Uma das principais razões pelas quais lastimei, em posts anteriores, o triste rumo e desfecho final do minipreço de Monchique, prendia-se com a possibilidade de me ser vedado o […]



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