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Um escritor e um geógrafo

02/05/2009

Em Novembro de 2004, consumidos três meses após certificação do grau de licenciatura pela Universidade Nova de Lisboa, fui convidado pela freguesia onde nasci e resido actualmente, a participar nas III Jornadas de Monchique. Decidi levar ao seminário uma estratégia de desenvolvimento territorial para a Serra de Monchique.

Engolido pela plateia, composta, maioritariamente, por gente notável do concelho, oriunda dos vários ramos do saber, quadrantes políticos e artes, senti saudades da sala 78 do Departamento de Geografia e Planeamento Regional e dos pactos que se faziam entre colegas, sempre, antes das discussões de trabalhos: «Vê lá não faças perguntas nem observações muito difíceis, olha que quando for a tua vez, quem te lixa sou eu!»

Assim isolado, agarrei o lápis amarelo e preto, pu-lo a dançar por entre os dedos e fixei a vista nos amigos presentes no plenário. Depois de lhes ler a aprovação nos olhos, encetei a oratória que seguiu ao ritmo da batida intensa e descontroladamente nervosa do coração. Todo tremendo, todo contraído, todo sôfrego para que aquilo terminasse depressa, lembro-me de atropelar palavras, umas atrás das outras, e de postas de sangue me afluírem, ininterruptamente, rumo às faces. Não fora eu moreno e a minha cara seria um apetitoso bife de vaca ainda cru.

Libertava-me à medida que também se relaxavam os semblantes de uma plateia na expectativa . No final só uma face continuava amarrotada, eivada duma inquietude e desconforto, cuja contenção forçada transparecia uma bomba de desaprovo prestes a explodir no período dedicado aos comentários e debate.

Aquela face, era a do escritor. Ficara «chocado» quando, no momento em que apresentei o mapa de ocupação solo, afirmei a monotonia paisagística transparecida pelos extensos eucaliptais e os riscos que aquela monocultura imensa representava para a biodiversidade do território monchiquense. Não obstante a contra argumentação apresentada e o coro de apoiantes que se levantou nas intervenções da restante assistência, senti-me absolutamente derrubado e os meus mapas desacreditados por aquela literatura em que Monchique e o Jardim do Éden serão a mesma coisa, mas com nomes diferentes.

Ontem, atormentado por uma estranha dificuldade em adormecer, olhando para a pilha de livros que tenho na cabeceira, escolhi, aleatoriamente, um dos livros do escritor «chocado» nas III Jornadas de Monchique. Comecei por constatar que alguém compara a sua escrita à de «um Eça esquecido». De imediato, imaginei o meu escritor preferido, Eça de Queiroz, a morder os torrões de terra que o cobrem e a desejar resolver aquela afronta literária recorrendo aos expedientes que casos do género, narrados na sua obra, justificariam, mas que não vale a pena aqui mencionar.

Abri o livro do escritor «chocado» numa página seleccionada ao calhas e comecei a ler. Não fiquei «chocado» com nada do que vi. Tudo naquela cuidada articulação de letras, cujo assunto não consigo recordar agora, me apaziguou, acabando por adormecer volvidas escassas páginas.

Depois daquelas Jornadas de Monchique, onde fiz a minha primeira apresentação em público, fora do ambiente académico, o escritor, indignado com a objectividade dura da cartografia, não terá, eventualmente, lido mais nenhum dos meus mapas. Eu, depois de ter lido aquelas duas ou três páginas, fiquei com vontade de voltar a deletrear aquele e outros livros do autor. Sobretudo em noites como as de ontem, em que a dificuldade em adormecer se apodera de mim, de forma incontrolável.

Em dias normais, no período reservado à leitura, das 0h:00m às 2h:00m, não me esqueço da minha boa “dosezinha” de Eça de Queiroz, um génio da literatura, sem comparação possível ou discípulos dignos desse nome. Nada mau para um autor «esquecido».

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