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Golpe de asa

13/05/2009

Derrapando na lisga verde da calçada do Revez Quente, os manos “Marosquinhas”, de cabelos incandescentes, olhos muito azuis alumiando as caras alvas e caveirentas, tomavam a direcção da escola sob os rugidos imperiais da mãe “Marosca” que os vigiava no encalço,  soberba.

Arqueado por um peso de calhaus carregado na mochila, o “marosca” mais velho, igual ao mais novo só que mais alto, disse ao outro, gingando:  «Oh Rui olha para mim que hoje sou um avião!», abriu os bracinhos à altura dos ombros e, esticando-os, com os lábios mal cerrados, soprando faíscas de perdigotos, rebentou a correr aos ziguezagues pela rua fora. O mais novo ria, enlevado nas acrobacias do irmão.

A bardajona da mãe, de chapéu-de-chuva na mão, enublada pelo fumo do cigarro que entalava nos dentes e chupava com ganância, reagiu à passagem do petiz com uma bordoada em cheio no cotovelinho do “marosquinha” primogénito e o avião nem sequer chegou a descolar, com problemas na asa esquerda.

Suspenso no passeio, agora com a  cara inchada e carmim, o “marosquinha”,  deteve-me com as vistas azuis inundadas em água e a mão direita cravada no cotovelo molestado. Fazia força para não chorar.  Teve vergonha e não chorou. O caçula, com as mãozinhas esqueléticas enterradas nas algibeiras, já não ria, melindrado.

Pouco depois, a mãe, meio metro atrás das crianças, com um arfar irritante, assobiando bronquite, grunhiu-me os bons dias. Irado com tamanha sordidez, retorqui-lhe com um olhar insultuoso e mudo. Disse para mim: «marosca bardajona, havia de cumprimentar-te como acabaste de mimar o pequeno».

É o diabo,  os “marosquinhas” acossados à séria por aquela criatura vil, quase todos os dias, só por fingirem voar ou ser crianças como as outras. 

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