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Eça é que é Eça

29/05/2009

Ainda a espinha se afeiçoava ao aconchego da cadeira e mal pude não reparar naquela senhora. Com os cabelos amarelados, repassados pelo secador, vestido “sem costas” e toilette encharcada em colónia de baunilha rasca, lia, à pressa, uma folha de apontamentos escolares, certamente pertença da filha, uma belfa adormecida prostrada a seu lado. No título da folha podia ler-se: “Os Maias – Resumo“.

Atirados de imediato às ripadas do cajado, dando início à peça, os primeiros acordes do Cruges lembraram-me o meu livro de bolso d’ Os Maias, de capa avermelhada, riscado e rabiscado com anotações didáticas e outras iconografias aludindo às aparvalhadas paixões do secundário.

A arrebatadora interpretação do elenco encenado por Rui Mendes, o aclamado Duarte do Duarte & Ca., correspondeu fielmente a cada frase do livro, fazendo-me reencontrar as imagens que idealizei aquando da leitura da obra, pela qual desembolsara 700 paus, cerca de 10 anos antes.

O Maestro Cruges, na quase muda  intelectualidade da sua ignorância, continua a ser o meu personagem preferido. Hoje, ainda me revejo no diletantismo de João da Ega e Carlos da Maia, tal como mantenho a ideia de que o ridículo e a infâmia do Dâmaso Salcede são levados da breca. 

Lá para o fim do espectáculo, um enfastiado bocejo ecoou no auditório, despedaçando a plateia.  A senhora emperiquitada da fila da frente, abriu também a sua boca de hipopótamo, contagiada. A filha, de xaile de seda branca às costas  e cabeça babando sobre o ombro da mãe, há muito que adormecera, logo às primeiras notas do Cruges. 

Mal caiu o pano ouvi a emperiquitada senhora balbuciar a uma outra, sentada à sua esquerda: «Eça de Queiroz é um dos maiores escritores do romantismo nacional, mas felizmente que hoje também os temos dos bons! Há a nossa Margarida Rebelo Pinto. A adaptação dos seus romances  ao teatro também  era capaz de resultar…»  

O ronco daquela criatura fedendo a baunilha, deixou-me à beira de um AVC. Esgazeado, vi a cabeça do Dâmaso sobre os destapados ombros da sujeita. Só tive tempo de correr dali para fora, antes que aqueles lombos ao léu me pedissem vergastadas…

«Chique a valer, hein?!» 

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4 comentários

  1. «um dos maiores escritores do romantismo nacional…», muito bom! Alunos meus não fariam melhor.
    Comparável a Margarida Rebelo Pinto… é justo, a senhora pode não ser perita em neologismos ou hipálages, mas sem dúvida que é mestre na arte da repetição e do auto-plágio…


    • É no mínimo intrigante Xana. Como diria Eça, estas comparações atiram a Literatura Portuguesa à latrina! Espero que os teus alunos percebam que Realismo e Romantismo não são a mesma coisa e que se um dia quiserem ler algo de realmente enriquecedor, existem muitos escritores portugueses por onde escolher.


  2. Faltou uma expressão imprescindível neste post: brique-a-braque


    • É mesmo! Imperdoável! Falar de Eça e não falar de Brique-a-Braque é quase um crime. Vale-me o facto do Craft não aparecer nesta peça.



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