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Alfredo Ameixa

09/06/2009

Alfredo Ameixa era um rapazola alto, franzino, de pele trigueira. Lembrava um marroquino. A negrura da encarapinhada  guedelha contrastava com a languidez do sorriso e com a profundidade daqueles olhos grandes, resplandecendo bonomia.

Embora dado a garrulices, Alfredo, passava as férias e os fins-de-semana isolado do resto da rapaziada lá da escola. No Inverno, deambulava  nos fundos dos córregos, colhendo cogumelos; nas intermináveis férias do Verão, era vê-lo a chapinhar pelas ribeiras, apanhando irós com molhos de trovisco desfeitos por lascas de xisto, ou aninhado por entre cômoros e ladeiras, sorvendo azedas e apanhando os orégãos que haveria de vender ao senhor Raposo, o da mercearia.

Na Vila todos o conheciam, não só pelo apelido herdado das escarlates faces alcoólicas do avô paterno, mas, sobretudo, pela singular façanha de se ter tornado no vencedor incontestável de todas as corridas de comemoração do 25 de Abril,  feitas às voltas pelas ruas da Vila, desde que a Revolução dos Cravos se apoderara daquele lugar da Serra Algarvia.

No final de cada corrida, era glorificado com um prémio semelhante ao atribuído à concorrência acabada de arrasar, uma bifana e um copo de laranjada que aspirava quase de um trago. E, encolhia os ombros e descaía o beiço inferior ao queixo quando lhe indagavam sobre o segredo do sucesso, em cada uma daquelas correrias. A muito custo, tartamudeava, envergonhado, com os queixos untados pela suculenta bifana e fios de carne ainda alapados entre os dentes:

– Isto é ouvir a “partida lagarta fugida”, lembrar-me de toda a podridão que anda aí por esse Mundo fora e pernas para que vos quero! Desato a fugir que é como um cão vadio apedrejado… Fujo do ódio, da miséria, da pobreza, da fome, da lazeira e das desgraças que por aí há. Depois é ver se não sou apanhado ao dobrar das esquinas. Se terminar em primeiro, quando for à bifana, sempre tenho o direito de escolher o papo-seco maior.

Porém, foi outra a história que colocou Alfredo Ameixa nas bocas do Mundo. Foi numa árida manhã de Verão, lambida pelo calor de ananases do Suão:

De um salto, pedalando em seco quando em suspensão nos ares, Alfredo Ameixa galgou os dois degraus da entrada da mercearia do senhor Raposo, esfuracando a turba que se amontoava à espera do leite fresco da manhã. Aproximou-se do balcão, atirou o boné à nuca, e, de imediato, com uma mocada na madeira de castanho carunchoso, ribombou num tom seco e austero:

– Senhor Raposo, arranje-me meia dúzia de ovos para a minha mãe fazer um pequeno-almoço de fatias douradas, com um pão duro que lá tem na despensa!

O senhor Raposo, homem de princípios e de respeito, empedernido, fitou o rapazola com os olhos por cima dos óculos de meias luas, presos ao pescoço por um fio de sisal encouraçado, e respondeu-lhe pachorrentamente:

– Ameixinha, meu patifezinho, sabe que esta casa é uma casa de gente séria, educada com modos. Não lhe fica bem essa pimponice de galfarro. Estão aqui senhoras airosas, delicadas, de famílias honradas, e o menino, quase mancebo, faz-me uma malcriadez destas?! Portanto, e uma vez que me vende oregãos como não os há neste país, vou dar-lhe uma segunda oportunidade de formular o seu pedido. Todavia, terá de fazê-lo de acordo com as regras da boa educação que norteiam este estabelecimento. Em primeiro lugar, tome um banho para tirar o sarro execrável que lhe cobre as peles. Torne a dirigir-se aqui e, assomando-se à porta, dê-me os bons dias. De seguida, pergunte-me se pode falar. Em caso afirmativo, peça-me permissão para entrar na minha mercearia e, se esta lhe for concedida, enderece-me então o seu pedido e ver-se-á se poderá ser atendido como mandam as leis e os bons costumes do Raposo.

O Alfredo Ameixa, dilacerado, olhando ora para as costas da mão esquerda, enodoada por uma mancha esverdinhada que fluorescia ainda mais, agora que nela limpava novamente o ranho do nariz, ora para a camisa amarfanhada e as calças rotas, desapareceu dali.

Pouco antes do almoço, e enquanto o senhor Raposo se aprontava para fechar a mercearia, aviando os últimos clientes, o Alfredo Ameixa surdiu à porta, com o cabelo muito lambido, o corpo encharcado em rosmaninho e a roupinha estreada no último Domingo de Páscoa, lampejando. Ardil, balbuciou:

– Senhor Raposo, muito bom dia!

– Bom dia menino Alfredo, retorquiu o merceeiro.

– Posso falar, senhor Raposo? O outro assentiu, fazendo um curto gesto afirmativo com a cabeça.

– Posso entrar na sua mercearia, Senhor Raposo?

– Com certeza meu abençoado menino, faça favor. Em que posso ser-lhe útil?

– Tem ovos, senhor Raposo?

– Tenho sim, menino Alfredo.

E o Alfredo Ameixa respondeu, bramindo sumptuosamente:

– Bem pode enfiá-los no cu, que o tal pão duro que a minha mãe lá tem em casa, ficou para a açorda do almoço. E largou a correr dali para fora, fugindo do ódio, da miséria, da pobreza, da fome, da lazeira e das desgraças que existem neste Mundo.

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10 comentários

  1. Ahahahaha. Tens que contar também a história do anãozinho, essa tb era boa 😛


  2. Nunca me tinha passado pela cabeça escrever sobre anões, Rui… Mas já que és tu a sugerir, vou tratar de pensar no assunto. «Era uma vez um anãozinho, pequenino, com carinha de menino, estava na rua a chorar…»


  3. Linda! Para quem só conhecia as estórias dos marosquinhas, embrulhe agora outra – exímia – bem ao jeito que já nos habituaste. Esta é mesmo para ficarem a saber quem é «o pai do Ameixa»! LOL
    Reporta-nos também para outras que já ouvimos, que se perpetuaram no tempo e que fazem parte dos livros das memórias da mercearia do senhor Joaquim Coelho ou do senhor João da Macheira…


    • Nem mais, Victor. São histórias para a pequenada de Monchique ficar conhecer melhor o que é ser-se “Monchiqueiro”.


  4. Qual anão!? O das Caldas? O Tatoo da Ilha da Fantasia? ou o Amendoim?


  5. […] ao momento, através do Terra Ruim, tive a oportunidade de condensar esta, esta, e mais esta história, tornando-as minimamente acessíveis ao António e aos que, depois dele, poderão vir. […]


  6. ah, muito melhor! 😀

    (deve ter passado, “vadio” não leva acento ;))


    • Obrigado pelo reparo, Jorge. Tanta coisa com o bom português e depois… “Bem prega São Tomás…”


      • não sejas parvo, são gralhas que passam, acontece aos melhores, como no caso! 😀


  7. […] qualquer razão, na história do Alfredo Ameixa, fui instado por dois leitores e amigos a escrever sobre anões. Agora escrevo estas linhas, não […]



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