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Don Juan

29/06/2009

Ter-me passado piolhos, ainda na escola primária, levou-me a tomar a inexorável decisão de o afastar do posto de «melhor amigo». Nunca mais tive um só melhor amigo. Decidi abrir a distinção a vários camaradas, de modo a que os efeitos de pragas semelhantes se diluíssem por muito mais gente. Passaram-se alguns dias, umas ensaboadelas de quitoso que não sortiram efeito e umas abrasivas pulverizações de dum-dum pelo cabelo cortado “à tigela”, e esqueci a sensaboria, recuperando a confiança num amigo que hoje reencontro muito esporadicamente, talvez apenas quando a vaca tosse.

Andava quase sempre esbaforido, atulhado por um pigarro persistente, passeando pelo recreio da escola e pelas ruas,  lacerado por uma asma bafienta que apanhou na casinha minúscula da avó, uma velha arrecadação de apenas 2 divisões onde se amontoava um pequeno povoléu: ele, a avó, mais a mãe e o pai nos dias em que conseguia reencontrar o caminho de casa. Tinha, quase sempre, os  cantos da boca e os entremeios dos dedos mascarrados pela marmelada guardada em cubos dentro dos bolsos, e que utilizava para subornar a amizade dos outros garotos. 

O vivório com que me brinda de cada vez que nos falamos deixa-me confortado. O passado cinzento e miserável há muito que o “largaram da mão”, como se também ele tivesse recorrido ao quitoso e ao dum-dum para se ver livre daquele destino soturno que o encafuou durante toda a infância.

Guardo para mim a ideia de que o momento que marcou a sua decisão de abandonar aquela vida acabrunhada foi na primeira das noites de convívio com os andaluzes que passavam férias acampando no pinhal da Fóia, durante o estio. Acanhados, diminuídos pela adolescência imberbe e, acima de tudo, pelo desconhecimento absoluto do castelhano, pouca coisa conseguiamos pronunciar com a propriedade de Cervantes, exceptuando tortilha, paelha e alguns palavrões. As espanholas sorriam-nos, cantando como sereias, e foi ele o primeiro a ceder, afagado pelo engodo acabado de lançar.

Deu dois passos, aproximou-se delas e disse num tom seco:

– Olá!

Elas sorriram novamente, em castelhano. Naquela altura ver sorrisos em castelhano era algo que também não estavamos habituados a perceber. Uma delas respondeu de imediato, num andaluz cadenciado:

– Holla. Hablas español?

Sem perder tempo e lampejando um sorriso ufano, bem português, balbuciou convicto:

– Un poquito… un poquito…

– Como te llamas? – Afirmou uma outra, deixando-se deslizar nos resquícios do gelo que se quebrara finalmente.

Ele corou, retesou-se e balbuciou:

– Un poquito… un poquito…

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12 comentários

  1. Adorei! Eu tambem quando era gaiata so sabia dizer um poquito um poquito em espanhol (nada de mais nada de menos). E eu tinha catrafadas de piolhos, isso era coisa que eu tinha para dar e vender. Se nao estivesses a falar de um macho ate poderia ter sido eu 😉
    Beijos


  2. Obrigado minha amiga Shanti.

    Qual de nós não andou gafo de piolhos, na escola primária? A minha cabeça chegou a ser uma verdadeira selva!


  3. Qualquer pessoa que tivesse “sarilhos” na turma tinha que obrigatoriamente ter piolhos.


    • Os piolhos foram a praga que marcou o princípio dos anos 90 nas escolas primárias do país, quem não foi afectado que levante o teclado!


      • Primária nos anos 90? Acho que é com tiradas destas que uma pessoa vê que o conta quilómetros já está na segunda volta. Não andei na primária nessa década (nem na anterior, hehehe) e nunca tive piolhos. Sinto uma pontinha de inveja, parece ser uma coisa fantástica! ;o)
        O texto está uma delícia!


  4. Nostálgico. Eu confesso que quando li este texto me veio logo um “comparsa” à cabeça. Se, de facto, é quem estou a pensar, muitas mais haveriam para contar… fora as que eu não conheço.

    Gosto de me lembrar desses tempos. Será difícil qualquer período da minha vida suplantar a felicidade que foi passar a infância em Monchique. Oxalá todos tivessem a possibilidade de crescer neste nosso paraíso a que muitos ignorantes chamam “fim-do-mundo”.

    Em relação aos piolhinhos, quem não os teve? Na escola de S. Pedro era todo o santo ano lectivo. E lembrar-me da minha mãe no acto heróico de expremer lendias branquinhas, qual tenente Ripley a extreminar Aliens?

    Ai a infância, a saudosa infância.

    Abraço!


    • @ MM
      Obrigado pelas tuas palavras. Tenho passado pelo teu blogue e vejo que o teu processo criativo não sofre da mesma turbulência que o meu. Ter piolhos só é bom passados cerca de 20 anos. Durante esse tempo, era um rol de artimanhas para ver se a professora não descobria.

      @ Carlos
      Muito mais histórias da nossa infância virão, com toda a certeza. Todos nós, eu, tu e os restantes, afinal, não somos nada mais nada menos que Terra Ruim. 🙂


  5. Será que posso tê-los agora? Seria, então, comparável a um “colheita tardia”, de doçura excepcional conferida pela carinhosamente chamada “podridão nobre”. Posso?


    • É capaz de não ser boa ideia. Para os pequenos, ver um adulto com piolhos é uma espécie de concorrência desleal. Funciona da mesma forma que, comer formigas em idade adulta, por exemplo. 😛


  6. Ai os piolhos na escola de s.pedro na década de 90…acho que não falhei um ano….a sorte é que eu tinha uma mezinha de aguardente de medronho, sementes de não sei mais o que, feita pela minha avó!


    • Acho que vou dedicar uma tag ou uma categoria, no Terra Ruim, dedicada às mézinhas miraculosas de que tanto me falas. Ajudas-me? Para ti, não há mal que não tenha cura recorrendo à tradição…Arranja-me um frasquinho de água da vida para poder ter vida eterna “faxavor”…


  7. A sabedoria popular é algo que sempre me interessou…a par de alguns ditados que têm mais de mito do que outra coisa, muitas coisas que as avozinhas diziam têm muito do seu quê de verdade…
    Se quiseres fazer uma compilação dessas coisas conta comigo!!!



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