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Manelinho Dentola

15/07/2009

Seria necessário um concílio de deuses, sábios, cientistas e coscuvilheiras, junto às margens do Letes, para deliberar sobre a condição de parvo do corpo escanzelado que cambaleava rua de São Sebastião afora, esquivando-se à cacimba que borbotava de um manto de nuvens pardas e pesadas adornando o céu. Ensimesmado, alheio à chuva miudinha e irritante, quase se conservava enxuto, dispensando assim a cósmica assembleia de ilustres. E, se um resquício de dúvidas persistisse, lá parvo é que não era!

O sentido faminto da matilha de rafeiros tresmalhados e ensopados com que se cruzava ao dobrar a curva do tanque do povo, sem sequer se dar conta, parecia muito mais obstinado que o da sua própria vida. E foi trôpego, com retumbantes passadas reflectidas pelas paredes da azinhaga, de skate debaixo do braço, que surdiu na travessa das Guerreiras. Entrou no Barlefante tentando retesar-se e, mal conseguiu levantar as pálpebras, que lhe pesavam como chumbo por debaixo do boné atafulhado na cabeça, desatou num azedume de urros taciturnos mal vislumbrou um torvelinho de gente:

– Não me toquem, não me toquem! Que ninguém me toque! Faz favor…que ninguém me toque!

De imediato, abeirou-se dele um dos empregados do bar. Compadecido, afirmou:

– Olha o Dentola, está de mal com o mundo, o amigo? O Manelinho Dentola, que tinha uma voz rouca, de arrã, nem o deixou acabar a pergunta e já remoqueava:

– O meu irmão…tenho aqui uma coisa para ele: Um par de peras. Hoje dou-lhe um par de peras…madurinhas…boas! Um parzinho de peras na focinheira! Levo eu a mourejar, alombo a carregar paletes, a minha mãe desunha-se e o lorde mama-nos tudo. E que o mandrião nos roube, que o sacripanta não queira trabalhar, não faz mal. Ainda forro algum para tabaco e cerveja. Agora, falar mal à minha mãe porque não lhe deu dinheiro para os vícios?! Descambou ao ponto de prometer-lhe cacetadas! Nem pensar… Duas peras dou-lhas eu hoje. Assim que ponha os pés em casa! Tenho andado aí à procura dele pela vila, corri seca e meca e olivares de Santarém… Mas também estive com a minha garina. Fizemos as pazes esta tarde. Esfregava as mãos e deitava uma risada marota quando disse estas últimas palavras.

Na mesa ao lado, dois rapazes assistiam a tudo, siderados. Acamaradou-se com eles, falando da sua experiência amorosa, da discussão com a «garina», dos golpes de charme que a faziam babar por ele, das melosas juras de amor eterno e das manobras de skate que tinha conseguido exibir durante a tarde, para a impressionar. Convincente, tagarelava sobre a felicidade que lhe percorria o corpo, desde a alma até aos ossos, gesticulando com os dedos amarelecidos pelo tabaco, até se lhe formar uma capa de escuma esbranquiçada aos cantos da boca.

E não fora o Silva, que do balcão examinava aquela descrição abocanhando cervejas que ingurgitava de enfiada, a decidir-se a contar a sesta ébria do Dentola por sobre uma das mesas da esplanada do café do largo, durante toda a tarde, e todos teriam sido persuadidos de que, apesar das contas a ajustar com o irmão, o Dentola estava realmente feliz. Foi um pormenor, uma triste minudência a estragar tudo. Felizmente, já não foi dita a tempo de envergonhar quem quer que fosse, por já lá não estar o Manelinho Dentola, relutante em tornar a casa e cumprir a promessa de entregar o «par de peras» ao irmão.

No regresso a casa, pela Serpa Pinto, tornou a dar de chofre com a matilha de cães vadios escarafunchando num contentor de lixo derrubado pela ventania. Uma malha de poças enegrecidas entristeciam a rua e tornavam ainda mais lúgubre a figura do Manelinho Dentola, bamboleando às tabelas nas paredes, furtando-se por entre os fios da chuvinha insípida que pouco ou nada o molhava.

Bambeavam-lhe as pernas quando, já à porta de casa, arfava baforadas azulinas que ofuscavam o vidro do postigo. Uma dúzia de cacetadas contínuas fizeram estremecer a porta, até que a figura do irmão apareceu do outro lado, com os olhos semicerrados de sono. Começava a porta a entreabrir-se e o Dentola, num assomo de Sansão, já a empurrava contra o outro, atravancando-o junto à parede. Com as duas manápulas acopladas ao gargalo do irmão, o Manelinho Dentola aproximou-se e fitou-o nos olhos. O outro acovardava-se, arquejando à medida que sentia mais de perto o bafo etílico e ameaçador do Dentola, que com a sua vozinha de arrã, coaxou, finalmente:

– Um par de cachaporras nos queixos e passavam-te as manias… Sabes que mais?! Cago-me em cabrões, que amanhã chove merda! Largou-o esmorecido, e foi escanchar-se na cama, sem sequer tirar a roupa, apenas os ténis e o boné, deixando o cabelo num molho de tojo acamado.

Acordou de manhã, estremunhado, com os ouvidos perfurados pelo barulho das goteiras que batucavam numa lata de tinta velha, prostrada do outro lado da parede. O irmão roncava. Com um gosto a podre na boca e um ligeiro azamboamento que o tolhia com pontadas na cabeça, ergueu-se, atafulhou o boné, e foi à labuta.

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3 comentários

  1. E isto é verdade ou ficção?


  2. Shanti, estas histórias, embora não sendo totalmente verdadeiras, têm sempre qualquer coisa de real na retaguarda. De resto, qualquer semelhança com a realidade vai um pouco mais além da pura coincidência.
    O objectivo é trazer à tona os heróis e os convivas da miséria, porque ainda os há, em Monchique. São histórias criadas com a finalidade de um dia dar a conhecer ao António (o meu sobrinho) as suas origens Monchiquenses. Para mais informações lê este post: 😉

    https://terraruim.wordpress.com/2009/06/14/aqueles-companheiros-darmas/


  3. Bem me parecia que havia ao menos uma pontinha de verdade! O teu sobrinho é um sortudo de ter um tio que lhe conta histórias assim. Já tinha lido o post antes 😉
    Beijos



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