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The real thing

10/08/2009

Com a pala voltada para trás, o puto usava o boné fundeado até metade das orelhas, forçando-o a andar de testa franzida. No Natal, recebera o último grito dos tocadores de áudio portáteis: um walkman sony mega bass que sobressaía aprisionado ao cinto das calças de ganga desbotada, remendadas nos joelhos com emblemas do Benfica.

A ele e à dádiva natalícia do padrinho, acompanhavam-nos, três cassetes primorosamente acasaladas, sempre que o corpo justificava secantes deslocações de duração superior a cinco minutos. Pelos cantos da casa, ruas afora, cerro acima, cerro abaixo e durante as visitas de estudo,  – em que havia que contar com um par de pilhas sobresselente, –  nada rompia a simbiose do puto mais o brinquedo sonoro, mais as três fitas: uma de Xutos & Pontapés comprada na Feira de Monchique, outra de Guns N’ Roses doada por um benemérito motorista do autocarro da Câmara enfastiado dos berros de Axel Rose, que mais lhe lembravam «os miados das gatas com o janeiro», e uma outra, cor-de-laranja, com os ritmos exóticos da lambada.

Tinha a mania que ouvia a melhor música de todas. Não havia acordes, melodias ou sinfonias que superassem o rondó das três iluminadas cassetes cujo interminável estribilho o walkman reproduzia com uma pachorra maquinal. Até que uma visita a casa de uns primos, no Barreiro, cunhou o epitáfio da santíssima trindade musical estabelecida pelo pequeno.

«Puto, tu não sabes o que é música a sério.» Sentenciou o primo Luís, observando as cassetes com um risinho de bazófia estampado na cara. E, de imediato, apertou o botão play da aparelhagem que começou a disparar faíscas eufónicas, alagando o prédio com a sensacional música dos Faith No More.

Ganhei uma nova cassete, que emalou para a eternidade a da lambada no leitor de cassetes do carro do meu pai. E, alargaram-se-me, para todo o sempre, os horizontes do infinito espectro musical.

Ainda imberbe, ao longo dos tempos, e até hoje, os Faith No More foram acompanhando o meu crescimento. Assistir ao concerto com que estes senhores nos presentearam na edição do Festival do Sudoeste 2009, foi reviver, uma a uma, as malhas de partir cascalho que integram a banda sonora dos momentos mais marcantes da minha vida. E este concerto foi um deles, garantidamente.

Fotografia: Manuel Lino

Fotografia: Manuel Lino

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3 comentários

  1. […] se pode ver nesta posta, os Faith No More foram os responsáveis pelo regresso a um espaço, ainda que por um dia […]


  2. Escreves bem, pá!


    • Obrigado pá! És um bacano, Bacano! A ti assenta-te bem o pijaminha azul, quando sentado na brasileira… 😉



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