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Cafarnaum

17/02/2010

Um gigantesco cafarnaum. No barulho das palavras que podem consagrar os dias de Carnaval em Monchique, estes são os termos que melhor retratam a folia, salsifré e serrabulho que por aqui se vivem. É sair até ao Largo só para ver:

Os ensolapados em trapos e cabeleiras postiças que, tresandando a naftalina, empestam o ar com a respiração das roupas velhas asfixiadas durante décadas nos fundos dos baús. Vêm juntos, em pequenas joldas. Os valentões e valentonas vestidos de quase total nudez, engalinhados com o frio da rua, mergulhados numa apoplexia delirante quando toca a cacafonia bizarra que é um apelo à descoberta do «pai da criança». Há homens vestidos de matrafonas e matrafonas vestidas de homens. Há os embezerrados moralistas, que não se vestem de nada, dizem que não gostam do carnaval mas não descuram a ocasião para apanharem tachadas de caixão à cova,  arraigados aos balcões de vendas, cafés e bares.  Etilizados em iguais doses, há outros, disfarçados, que cantam não sei o quê com vozes de cana rachada, largando asneiredo em cada eco. E há as calhandreiras a deliberar  sobre as «figuras» dos outros. Há crianças birrentas, aparvalhadas com sono. Onde exista música e um estrado, amarfanha-se a multidão num saco de gatos e todos dançam. Há os de caras pintadas, que as vai lavando o suor da pândega, à medida que o tempo passa. E, no fim da noite que é começo do dia, são os rostos da caliça e do betume estalado em mais um Entrudo que se gastou.

Há, depois, tudo o resto: as máscaras superiormente esgalhadas, personificações, a sátira e o bom humor. Há, não raras vezes, o famigerado «Mar de Cacetadas». No carnaval de Monchique nunca há prejuízos porque este não quer ser brasileiro. É aquilo que foi e será sempre: um gigantesco cafarnaum.

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8 comentários

  1. É bom saber que a malta se mascarou, é que há quem não sem lembre de nada… lol, cada vez mais admiro quem inventou tal forma de registo para mais tarde recordar… e não há mais fotos?


    • Toninho, tens de ver isso. Tu estiveste sempre sóbrio durante os três dias de Carnaval. Ou será que fizeste parte do grupo dos bebedolas? 😛

      Tenho mais fotos, porém, infelizmente, acho que não tenho nenhuma dos Pauliteiros de Miranda ou dos Funcionários da Câmara Municipal.


  2. Sempre sóbrio!!! lol


  3. e ainda há os que não deixam escapar nada: vestem-se, pintam-se, bebem, dançam, apreciam as mascarinhas dos outros e aproveitam tudo o que o entrudo tem para dar 🙂


    • Que a terra lhes seja leve, a esses que tão eficientes são na hora de aproveitar essas extasiantes horas.


  4. Tambem queria….parecem tal e qual os mesmo desde a ultima vez que passei um Carnaval convosco. O Joao Tiago estava mascarado de Carlos Cus e o resto do pessoal de meninos da casa pia.


    • Aisssshhhh! Isso já foi há tanto tempo, Shanti! Mas lembro-me perfeitamente. Ias mascarada de menina colegial 😛 É bom saber que há coisas que nunca mudam, tirando o facto de tu já não acompanhares connosco há muito… 😦


  5. É bom ver que a tradição ainda é o que era, roupas quase a roçar a nudez e o frio e chuva típico de Monchique e do nosso Carne e Vale. Vá lá que este ano foi bom em Aguardan…lol

    Saúdinha pissoal



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