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Pedras Queimadas

04/03/2010

Segue a minha crónica, habitualmente ignóbil, habitualmente indecorosa, no Jornal de Monchique

Na fundura do barranco do Demo não há mal que dure sempre, nem bem que não se acabe. A crueza de ambos funde os anos em duas estações só. No Verão, vem a torreira do Suão e logo sobreiras e mato se põem vestidos de uma lava viva de labaredas incandescentes barbeando os cerros numa fome insaciável a que nem as pedras escapam, ardendo também, numa tristeza fúnebre. Salva-se a courela do milho, verde no meio da paisagem lutuosa. Depois, vem a Invernia e o tempo fica voltado para o lado do pego. Os aguaceiros são fios-de-prumo ligando céus e terra, o elo que a Deus certifica serem direitas as linhas com que escreve os cumes sinuosos dos cabeços. As bátegas esgaivam as chapadas desnudadas pelo fogo e arrastam as batatas no enxurro. No lugar delas, ficam semeadas as pedras queimadas em brasa no mês de Agosto. E o barranco do Demo atafulha-se ainda mais na fundura desconchavada da Serra.

A tudo isto assiste o Zagalo, mudo e sem clamar, em companha da Coimbra, uma rafeira danada para fazer as urzes espirrarem perdizes, e o diabo, amassando o pão que é a comunhão dos três. Sentado no poial, com as mãos ásperas, os dedos gretados, como galhos de azevinho retorcidos pelo tempo das artrites pousados sobre os joelhos, as costas meio marrecas encostadas às paredes de taipa caiadas de imaculado e o chapéu desbotado descaído sobre os olhos pequeninos, o Zagalo não vê o outro lado do vale, não enxerga mais que a terra que os pés pisam, para além das raízes do velho zambujeiro arraigado à porta de casa, onde os cascos do burro se apeiam. Come o pão que o diabo coze sem questões e mata a secura do esquecimento dos homens com o travo da água ferrosa a brotar da bica que enche o tanque. Nunca pergunta porquê.

A vã austeridade do viúvo é povoada pela candura das memórias esgazeadas da mulher, antes do mal fulminante que a fez tombar num canteiro, com uma paveia de vimes nos braços. São lembranças tristes, desvanecidas nas cartas que o filho lhe envia da França. Com a voz de garrafão do Vitalino, o único amigo que lhas sabe ler, falam-lhe dos degraus que desce no inferno dos andaimes encavalitados em cadafalsos pelas pestilentas bulevares de Paris, direito ao dia do retorno aos torrões de xisto do barranco do Demo.

As cartas são sopros que insuflam o Zagalo duma esperança ensoberbecida. Nos dias em que o Vitalino, encharcado em almudes de aguardente, lhas lê como quem canta loas, volta da tasca remoçado. E, os sonhos dos convivas de balseiros de medronho passam a ser também os seus. Pelos corgos, a cavalo no burro, vem lobrigando um polpudo abraço que há-de dar ao seu “Toininho” no dia do reencontro, junto ao Zambujeiro onde o burro se apeia.

Pode então vir o desamparo cruciante dos incêndios, das enxurradas e da solidão esbarrondada. Se o fogo crepita nos sobreiros, o Zagalo pega na Coimbra e mergulham ambos no milheiral ou no tanque de água ferrosa até que a lava tresloucada do vulcão de chamas se amortalhe novamente em pedras queimadas. Se a chuva começa a tamborilar na manta morta até a ribeira galgar os grandes amieiros das margens, o vento urra e o burro zurra, o Zagalo despe-se todo da cintura para baixo, abraça-se à rafeira que lhe abocanha as calças por uma presilha como a um penduricalho, atravessa o caudal gélido, viscoso e barrento, torna a vestir-se, e sobe o resto da ladeira a pé, de bordão na mão, assobiando um corridinho e com uma folha de hortelã atrás da orelha.

Na tasca, o Vitalino, com mais uma carta para o Zagalo dobrada em quatro na algibeira da camisa rota, espera-o, impertinente, a zaranzar por entre os bonifrates que vêm provar a aguardente nova. Esbaforido e alheado do invulgar ramerrão, o “Zé Galo”, nome pelo qual é conhecido na aldeia, entra no tugúrio convicto de que, havendo carta, é hoje que termina a via-sacra. A dele e a do filho, pendurado nos andaimes das imundas bulevares dos arrabaldes de Paris.

– Eh Zé Galo! Pensando eu no diabo e não é que lhe aparece o rabo?! Senta-te aí à mesa pá, temos cartinha… da França! Deve ser do teu “Toininho”! – trovejou a voz embebedada do Vitalino, sem reparar na caligrafia despida dos habituais rabiscos do filho do Zagalo, electrocardiogramas apenas decifráveis pela manha do taberneiro.

– Cheira-me que é hoje… é mesmo hoje que ele diz quando volta! Sempre vão para trinta anos fora – respondeu o Zagalo com bazófia, empedernindo nas faces do Vitalino que esbranquiçavam à medida que os olhos gulosos de ambos sorviam a carta.

E, ao cabo de cinco dias, o filho do Zé Galo tornava à terra embrulhado em quatro tábuas, depois de ter devolvido a alma ao Criador, de cima de um andaime, nos hediondos subúrbios de Paris.

Imagem: O barranco do Demo, mergulhado na fundura da Serra de Monchique.
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3 comentários

  1. Simplesmente brilhante. Continuas e continuarás a surpreender-me. Não és um bloguista, nem um cronista. És um escritor atento aos detalhes, capaz de me fazer passar imagens diante dos olhos e viver sensações de um mundo que já lá foi mas ainda é.


  2. Ana, porque o silêncio nem sempre é redondamente absoluto, devo dizer-te que as tuas palavras me deixaram calado e com as falangetas paralisadas, sem saber como agradecer-te. Sou apenas um contador de histórias, isso sim. 😛


    • Não disse mais que aquilo que genuinamente penso 🙂



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