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Senhor dos Passos

03/04/2010

Corria o tempo da miséria. Março ia já na aurora e a terra permanecia desmaiada naquela lenta e tenebrosa maceração. Encourado numa película delgada, partida em pequenos ladrilhos de arestas arrepiadas de secura, desde o equinócio de Outono que o chão desesperado da Serra vinha mendigando água ao cerúleo macambúzio do firmamento.

A ribeira, numa quietude prestidigitadora, transformara-se num fino fio de água estornando-se pachorrentamente por entre os seixinhos rolados, até que a habitual rouquidão das mós perras se calou, escalavrando a alma ao cerro do moinho do Xico Manchinha.

– Mata-se o porco! – atroou o moleiro, no silêncio penumbroso e recolhido do caldo de papas moiras onde a insularidade de um osso destoando no mar de água turva da panela de cobre enlambujava de cobiça a mulher e os três filhos sentados à mesa.

Que estava maluco, acudiu a mulher prontamente. Na altura de vender os presuntos que acabavam de curtir na salmoura é que se punha com ideias. De mais a mais, o que diria o senhor padre Herculano quando, a meio do jejum da Quaresma, lhe batesse à porta com os lagartinhos do lombo tumulados entre dois alguidares de barro. Morria de vergonha. Não, perante uma cavilação sacripanta daquelas, não haveria água que os lavasse a ambos.

– Espera até ao Domingo de Passos. Pode ser que mal mexam no Nosso Senhor… – completou, com os queixos hesitantes, tentando demover pela fé a vontade terrena do marido.

O Xico Manchinha, que era um castanheiro de raízes azougadas, presas à dureza profunda e humana da rocha-mãe, respondeu, numa rudeza azoada:

– Era só o que faltava! Estar à espera de milagres e as mós paradas, o cereal por rilhar, açaimado nas sacas, e os moços pequenos ganindo com fome à roda da gente! Milagres, mulher, são as nossas mãos que os fazem – tartamudeou por fim, arreganhando rijamente as mãos empoeiradas de farinha.

Prostrado, o filho mais velho do moleiro tinha diante de si uma revelação que lhe tolhia a alacridade de menino: A água que passara chalrando pelo rodízio esmorecia num fio cristalino de esperança soterrada no cascalho inerte e, com ela, o sonho de passar com distinção no exame da quarta classe. No vale enviusado da ribeira corria o tempo da miséria, e, também ele, teria de ajudar a vencê-lo esgrimindo sacrifícios.

– Os números e as letras são sempre os mesmos. A tabuada e as redacções podem esperar, Carlinhos – ciciou-lhe num tom grave a voz compadecida do pai, afagando-lhe a mão rija na cabeleira lisa e preta, escorrendo-lhe pelas orelhas abaixo.

O picão da indigência matriculava-o na escola da vida. Bastaram as primeiras três semanas de jorna, cerro acima cerro abaixo, carregando feixes de lenha seca, rachando cepas ou acompanhando as vacas na sua existência transumante, para que um entristecimento maciço se lhe apoderasse dos gestos e feições. As pálpebras iam pesando como barrotes de azinho, a carne mirrava-se nos queixos e encaixava-se nos sulcos fundos das costelas. Tolhido por um assomo flamejante de febre e calafrios, ardia em delírios desgostosos na modorra da cama.

Feita a experimentação, a mulher do moleiro valia-se duma certeza metafísica. Mal se tocaram na pelangana, azeite e água misturaram-se na densidade amorfa de um só fluído: mau-olhado. Junto ao leito febril do filho, siderado pela inquietante resignação das mós paradas do moinho, Xico Manchinha lamentava-se da justiça salomónica que se lhe abatia:

– O mau-olhado fomos nós que lho pregámos, mulher… um céu aberto a trabalhar que nem um burro…- e o garrote ataganhado da culpa desarmava-o de mais palavras.

Elisa Manchinha, padecia da mesma tormenta e alinhava na culpa do moleiro. Envolta no desespero instintivo de mãe e na lealdade declarada de esposa, brandiu num rogo de preces ao Senhor dos Passos. Por chuva e pelas melhoras do Carlinhos. Acendeu uma vela, prometeu e esperou pelo dia da paga rezando salve-rainhas desesperadas. As folhas ramalhavam lá fora. Murmúrios ventosos abafavam-lhe as súplicas .

Veio, finalmente, a procissão do Domingo de Passos e o Carlinhos Manchinha, paliado pelas mezinhas de aguardente e mel, arrastava o corpo escanzelado pelas pedras da rua, adivinhando o caminho ao andor. Trazia os lábios rebentados pelas terçãs e as mãos chagadas pelas mordidelas do trabalho. Enfarpelado no manto púrpura e na coroa de verga em cima do cabelo escorrido, alombando de empréstimo as ripas cruzadas onde o espantalho pontificava na solitária tarefa de espantar os gaios agoirentos nos cômoros das ervilhas, as Endoenças ganhavam vida nas batidas esmarridas do seu pobre coração. Mesmo ao lado, atrás da irmandade da Misericórdia, a filha do médico, vestida de anjo, caminhando em passinhos almofadados, os olhos índigos e a pele lampejante, trazia nas mãos um ramo embaralhado de jarros e hortênsias fluorescentes. Fitou-a de soslaio. Pagaria também uma promessa, ou seria apenas ostentação beata encomendada pelas tias? Que importava isso, agora? Ali, debaixo do olhar sofrido e absorto do Divino Mestre ajoelhado no andor, eram todos iguais.

Soprava uma névoa. De passo estugado, a procissão subia agora a Rua do Porto Fundo. Coçando as barrigas opadas nos bicos dos cerros, um rebanho de nuvens em forma de bigorna engalfinhou-se na atmosfera e tomou-a pela cor do aço, até que um facho ramificado de luz ribombou por entre a multidão, rasgando a secura do horizonte. Já no adro da igreja, quando o Padre Herculano berrava o Sermão do Encontro, os céus desataram a debulhar as primeiras bagadas de água. No leito esterilizado da ribeira, as mós escorregavam, ásperas, novamente. A Vila inteira cheirava a terra molhada. Corria o tempo da miséria.

(No Jornal de Monchique.)

Moinho do Poucochinho, Barranco dos Pisões, Monchique. A imagem foi retirada do primoroso acervo do Parente da Refóias.

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