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Zé Constâncio

07/09/2010

Na minha habitual crónica do Jornal de Monchique, palavras lavradas com o arado da ternura para quem nunca as poderia ter lido, a não ser com os ouvidos: o meu avô materno. Por esta mão sou transportado a um tempo em que, na minha terra, em tempos não muito longínquos, homens e bovinos se enxertavam de vida uns nos outros, numa comunhão de destinos quase simbiótica. Numa vila instruída a valores de honra superior, a tourada agendada para o próximo fim-de-semana é a expressão sincera do desenraizamento da nossa identidade cultural e de retrocesso de humanidade, ética e moral.

                                                                                    

Abençoada de fartura de tudo quanto a Natureza lhe dispôs, Monchique é um versículo decantado do Pentateuco . A Fóia e a Picota, como duas mãos de pedra retalhada, erguem-se humildemente numa oração sepulcral de penitência aos céus e, no tumescido chão, talhadas ora no sienito ora no xisto, cumprem-se as Sagradas Escrituras: a Aliança de Deus com o homem, e este, na sua índole refractária, a pecar deslumbrado com a promessa de uma nova aliança; a Terra Prometida em matas de eucaliptos, arrobas de cortiça e duas ou três quadras de batatas, ou mais, conforme as posses de cada um; e a perenidade do Povo rasgando o caminho poeirento do destino a picareta. A gestão disso é quanto basta aos poderes de um Deus só.

E quem vê a talha dourada das molduras deste quadro não cuida que a vida dos últimos Patriarcas desta Serra, convertidos em profetas do mistério da fé na vida harmoniosa entre todos os seres da Terra, foi uma missa desprovida dos mais sagrados dogmas e rituais.

Como o Zé Constâncio, por exemplo, nunca houve, neste amontoado de cerros sáfaros, igual a ele. Era o reverberar da dureza do solo casto em que as suas raízes se firmavam, embebedadas da mais vital e subtil seiva a escoar nas gargantas e nos barrancos. Libava-lhes, com os tojos e as rosas albardeiras, a justificação que o enrijecia e agigantava numa luminosidade de espírito reconhecida por todos quantos lhe requisitavam os serviços voluptuosos do Cravinho, um cobridor da cor do barro, de graves mugidos, a quem a filiação herdava impreterivelmente as hastes amoladas na ponta, o porte severo, robusto, espartano, e o tique de escarvar afanosamente o lajedo com os canelos de trás. Bezerro que lhe descendesse não sucumbia ao atrito pesado da relha a trincar o fundo às penedias. Às vitelas por ele geradas nunca secavam as tetas.

Jungidos pela canga do destino, o Zé Constâncio e o Cravinho foram palmilhando os carreiros alcatifados da boa fama como as veredas que ambos percorreram semeando o milagre da vida pelos estábulos da Serra. E já eram poucos os que não tinham ouvido falar da linhagem do Cravinho e não espalhassem as façanhas perfeitas do prolongamento da sua existência noutras terras, noutros mercados e noutras feiras, ao ponto de nem a almudes de aguardente, nem a courelas, nem a dinheiro se conseguir demover o Zé Constâncio da sua maior fortuna. Vinha gente de fora, disposta a pagar uma dinheirama, e nada. Veio numa feira o Pedrosa, um latifundiário encacheirado do Cartaxo, possuidor de uma ganadaria de estremas ruminadas no horizonte apascentado por sol, lua e gado dia e noite, de carteira engordada a notas insurrectas a rasgar-lhe os pespontos da camisa, e foi isto, na parcela destinada ao comércio de gado:

– É você que é o Zé Constâncio?!

– Assim o disseram os meus pais, padrinhos e o padre que me ungiu diante da pia baptismal. Deus os tenha em boa conserva… E a si, também… – respondeu, desenvoltamente, com um sorriso ágil que parecia sair-lhe da boina que desenterrara na solenidade do cumprimento desconhecido.

– Diz que tem aí um cobridor que é um primor. Comprovei-lhe o crédito das façanhas nos bisnetos e trisnetos que já lá chegaram ao Cartaxo. Tem fibra para a procriação, o bicho!

– Lá isso… Dispensa apontador e quase nem é preciso picar durante a lavra… – atalhou o de Monchique com o mesmo sorriso límpido com que vaiou inicialmente o ganadeiro.

– A como o vende? – albardou o outro à vontade, atirando secamente a mão de encontro à saliência das notas inchadas no bolso da camisa estriada.

– O Cravinho não se vende, meu amigo. É quase família, percebe? É o motor da vida que a mim já me vai faltando. Se o vendesse, éramos dois desgraçados… Compreende? Nem por essas notas, nem por uma camioneta delas. Se o quiser para procriação é levar lá ao monte a vitela que a coisa faz-se. Essas primaveras da vida não tenho eu o poder divino de negá-las, nem à bicheza.

Ao cabo de um mês, o Pedrosa, de botas de cano alto, chapéu de abas largas e a mesma camisa a estoirar de dinheiro no bolso, voltou, com a vaca que haveria de ser a mãe dos enésimos filhos do Cravinho. Encostou-se ao muro de pedra musgosa, com a cara escondida no jornal que fingia ler por pudor ao momento. Um passo à frente, de mãos confiadas aos quadris, o Zé Constâncio incentivava o bovino:

– Eh Cravinho… vai-te a ela… Eh shhhh, vai-te a ela…

Uma hora passada e nada, ainda. De cadeiras derreadas pelo inusitado peso na espinha e com o cachaço coberto do monco cansado que escorria do focinho largo do charolês, a vaca soltava mugidos lancinantes de impaciência que abafavam a perseverança dos encorajamentos do Zé Constâncio. O fósforo riscava o rego do servidoiro e desviava-se do caminho, sem maneira de se acender dentro do forno íntimo e fecundo da vaca.

– Enganaram-me bem enganado “sôr” Zé! O boi nem sequer sabe o caminho e a vaca está nas últimas. O melhor é dar o serviço aos toiros do Cartaxo! Assim não vai lá, não!

Ao motejo protestante do Pedrosa, o Constâncio, com as costas do antebraço limpando pensativamente a testa orvalhada de pingos de suor comprometido, tomou a decisão de mostrar que em frente do curro é que o toiro se vê. Num gesto tão brusco quanto puro e espontâneo, surripiou o jornal às mãos vagas do Pedrosa, embrulhou-o no gume inteiriçado do charolês, e, apontando-o às partes da vaca, disse, resoluto:

– Ah vai, vai… Vai e até vai lendo!

Parvo e ligeiramente assustado ainda, o Pedrosa fitava o milagre consumado, boquiaberto. Aterrou-lhe novamente a voz abrutalhada do Zé Constâncio, como uma juncada que o acordou da hipnose:

– Eh “sôr” Pedrosa, aqui já não valemos para nada. Vamos andando para cima que, nestas coisas da intimidade da criação, o melhor é deixar correr!

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One comment

  1. Conheci esta história passada nos meus tempos de juventude! Inclusive conheci o local e os seus intérpretes.

    Durante muito tempo ficou famosa a frase: “até vai lendo” porque todos sabiam, na época, o que isso significava!

    Obrigado pelo texto que está um primor!

    Venham mais históricas verídicas contadas por quem sabe escrever!



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