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Dar acordo de mim

17/09/2010

Uma noite inteira de olhos abertos, a assistir a uma peleja cósmica. Enlevado na corrida dos sentidos, em que a luz dos coriscos fugia aflitivamente do ribombar estrépito dos trovões, sem tempo sequer para contar os segundos que distavam entre uns e uns outros, multiplicá-los por 343 e conhecer assim a lonjura que me apartava da contenda, dei por mim a lembrar-me de Bárbara de Nicomédia, de minha avó e do meu tio Zé. De Santa Bárbara por obrigação encomendada em cada episódio tonitruoso, de minha avó e do tio Zé porque neles exorcizei o vergonhoso terror à tartufice do fenómeno.

Num dia como a noite de ontem, sem folhas de palma benta para queimar, foi minha avó quem me convenceu de que as raízes de luz a esventrar o céu de breu e a trovoada a ribombar nos ares era tão só um Gigante, pulando de cômoro em cômoro, a tirar retratos à Terra para depois recolher novamente à casa que ficava acima do céu. Foi precisamente na voz grave, de rachar as paredes, e nas  mãos grandes, gordas e ásperas como lixa do tio Zé que personifiquei a figura do Gigante.

Navegava nestas águas, com as imagens de meu tio e de minha avó a enfunar as velas da barcaça da imaginação, quando o estrépito remoto da trovoada ressoava como a marcha agoniante dum comboio a subir pesadamente o Douro. Adormeci, sem me despedir do Gigante e sem rogar a Santa Bárbara.

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