Archive for Março, 2011

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Laika 1997-2011

31/03/2011

Não tiveste a fama lustrosa do Zorbas, de Luís Sepúlveda, nem do Mago, de Miguel Torga. Fama contida em páginas de prosa que nunca se alastrou ao concreto e ao absoluto. Sim. Eram eles que, agora, como eu, te deviam estar a invejar a liberdade e a condoer-se de te teres ido.

Cúmplices, gostávamos um do outro. Eu a sonhar a tua liberdade ingénita e tu a procurar o calor consciente dos meus sentidos, foste sempre mais dona de mim que eu de ti.

Hoje já não me saíste ao caminho, enfeitada de ziguezagues ronronantes. O lombo ufano muito arqueado a roçar-se, pantomineiro, é uma miragem a azedar-me a tristeza, como o leite que ainda azeda pacientemente à tua espera no teu prato.

Morreste-me. E é como se no sítio onde te deixei, amortalhada na manta de retalhos onde gozavas, consolada, as horas buliçosas de ócio e de preguiça, tivesse enterrado a caução morta da minha liberdade viva.

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Sonho

28/03/2011

Levito levemente

O meu sonho num balão

De ar frio,

Vazio.

Mas o esforço do despertar é em vão

E o peso do sono impotente.

É assim embalado na vigília ausente

Que vou perdendo o pé ao chão da vida.

E sem acenar a despedida

Vejo, na lente

dos meus olhos reflectida,

A minguada medida

Do meu mundo:

Um desaguado vale profundo

Entalado na rudeza das vertentes

Do relevo humano.

Purgatório quotidiano

De culpas inocentes.

Fotografia: Humberto veríssimo

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Primavera

21/03/2011

Emoldurado por uma janela de vidraças largas, encho os olhos com a minha Serra de Monchique enfarpelada no traje tradicional da Renovação. Olhar o espectáculo esplendoroso da Natureza batida por fragrâncias de verde e outras cores que rebentam em cada gomo e em cada torrão, é como morrer lentamente, a pouco e pouco, só que ao contrário.

Fotografia: Humberto Veríssimo

 

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Alcácer Quibir

18/03/2011

Objectivamente, é uma batalha perdida, um Alcácer Quibir. E ando nisto, como o Romeiro do Garrett. Diante de um colega que já não nos reconhece como um artigo da lei do menor esforço; de um amigo que já não nos adivinha a utilidade de um interesse; de um camarada que já não nos empunha como a ponta da lança na luta quotidiana, à pergunta «Quem sois vós?», aponto para uma imagem desenterrada no areal ondulado da lembrança e respondo: «Ninguém…»

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Cortiço

01/03/2011

Deu gosto ver. E sentir. Cinco perfumados minutos, transido, a observar o trabalho metódico e dignificado de um enxame de abelhas em dois tufos acamados de alecrim, à hora em que o foguete do sol mora no zénite. Com o mesmo rigor da labuta apícola, examinei, rondei, contemplei, especulei e desejei caldear-me no zunzunar harmonioso e polinizado que me aferroava as vistas.

Mas, por muito que a cera das mantras budistas me ilumine toda a largueza do espírito, logo dei conta da impossibilidade de juntar-me à doce jorna: o meu enxame é humano, o meu cortiço é o Mundo, e o mel que tenho guardado nos favos da alma é amargo como o candeio dos medronheiros.