Archive for Setembro, 2011

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Castro do Alferce

29/09/2011

Castro do Alferce, Alferce – Monchique. 478 metros de altitude.

Não me contento com os estrebuchões que vou dando no desenrolar da minha história tragico-telúrica. Nenhuma das minhas jornadas de andarilho se estende em léguas e léguas de contemplação paisagística, sem que se desencadeie em mim uma vontade inflexível de plasmar-me na Natureza a encurralar-me os sentidos e o entendimento. E, num desespero convulsivo, vou esbracejando freneticamente com versos, respondendo como posso ao aceno apaixonado do chão que piso:

Velho Castro do Alferce

O que és tu se não ruína

Da má sina

Que é ser

Sem parecer.

Velho Castro… cume sisudo,

Tudo o que aqui acontece

Acorda e adormece

Nos longes dum silêncio mudo.

Velho Castro da memória

Erodida.

Quem te vê dentro da História,

Fora de uma batalha acontecida?

Velho Castro… fortificado,

Desterrado de moiras e encanto.

Tristemente alcandorado

És pedras, solidão e pranto!

Fotografia: Castro do Alferce - Alferce, Monchique.

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Pedras Queimadas. Obrigado!

29/09/2011

Com uma vontade férrea, procurei ser fiel à realidade autêntica do Barranco do Demo e das gerações que vêm habitando esta Serra. Somítico nos dons, enjeitado pelo talento, porfiei o mais que pude. E quando o fôlego me faltou, foi a aragem do vosso apoio que me retemperou a lira. Debaixo dos dedos tenho uma tábua plástica com uma sopa indecifrável de letras, quando o que precisava era de uma bigorna e um martelo para poder forjar a humildade da palavra mais humana que me ocorre dizer-vos: OBRIGADO!

Em baixo, deixo-vos relembrar as palavras do texto:

PEDRAS QUEIMADAS

Na fundura do barranco do Demo não há mal que dure sempre nem bem que não se acabe. A crueza de um e outro funde os anos em duas estações só. No Verão, vem o bafo quente do Suão e logo os sobreiros se põem vestidos de uma lava viva de labaredas incandescentes barbeando os cerros com uma fome tamanha que nem as pedras escapam, ardendo também. Uma tristeza fúnebre. Salva-se a courela do milho a remendar de verde a paisagem lutuosa. Depois, a Invernia e o tempo voltado do lado do pego. Os aguaceiros são fios-de-prumo ligando céus e terra, certificando a Deus que são direitas as linhas com que escreve os cumes sinuosos dos cabeços. As bátegas, gordas, pesadas, com uma força de mil braços, esgaivam as chapadas desnudadas pelo fogo, arrastam as batatas na torrente, deixam no seu lugar as pedras queimadas em Agosto, e atafulham ainda mais o barranco do Demo na fundura desconchavada e solitária da Serra.

A tudo isto assistiu o Zagalo, mudo e sem clamar, em companha da Coimbra, uma rafeira danada para fazer as urzes espirrarem perdizes, e o diabo, amassando o pão que foi sempre a comunhão dos três. Sentado, com as mãos ásperas e gretadas sobre os joelhos, encostado às paredes de taipa caiadas de imaculado e com o boné repassado a descair-lhe sobre os olhos, o Zagalo não via a outra encosta do vale, não enxergava mais que a terra que os próprios pés pisavam, para além das raízes fundas do velho zambujeiro arraigado à porta de casa, onde os cascos do burro se apeavam. Comia o pão que o diabo amassava sem questões. Dizia, amochado: «- é o destino», e matava a secura do esquecimento dos homens com os infindáveis travos de lealdade da cadela e do burro velho. Um dia, rasgando o aço maciço do silêncio, perguntou-lhes: «-Porquê?».

Na cabeça, iam-lhe já envelhecendo as memórias esgazeadas da mulher antes do mal fulminante que a fizera tombar com uma paveia de junças nos braços. Eram lembranças desesperadas que se desvaneciam a cada carta que o filho lhe mandava da França. Com voz de garrafão, o Vitalino, o único que as sabia ler, contava-lhe, ao balcão da venda, sobre mais um degrau que o filho descera no inferno dos andaimes encavalitados nos pestilentos bulevares  de Paris. Vagaroso, o rio de ilusões desaguava direito aos torrões de xisto do barranco do Demo, insuflando o Zagalo duma esperança ensoberbecida. Era certo e sabido. Nos dias em que o Vitalino, encharcado em almudes de aguardente, lhe apregoava as novas benfeitorias do filho, voltava da tasca remoçado. Ossos novos para a Coimbra e feno fresco para o burro e tudo. Os sonhos que ouvira contar aos outros homens lá da tasca passavam a ser outra vez seus, também. Pelos corgos, a cavalo no burro, os corações de ambos a cem à hora, lobrigava um polpudo abraço que havia de dar ao seu Toininho no dia do reencontro.

Viessem os incêndios e as enxurradas. Tanto se lhe dava: se o fogo crepitasse nos sobreiros,  pegava na Coimbra e mergulhavam ambos no milheiral ou no tanque de água ferrosa até que a lava tresloucada do vulcão de chamas se amortalhasse novamente na ossatura das pedras queimadas. Quando a chuva começava a tamborilar na manta morta até a ribeira galgar os grandes amieiros das margens, uivasse lá o vento, zurrasse lá o burro, despia-se todo da cintura para baixo, abraçava-se à rafeira que lhe abocanhava as calças por uma presilha como se dum penduricalho se tratasse, e atravessava o pastoso caudal lamacento de bordão esguio na mão. Uma folha perfumada de hortelã na orelha, um corridinho finamente assobiado e punha-se ao caminho, sorridente.

Na tasca, o Vitalino, com mais uma carta dobrada em quatro na algibeira da camisa amarrotada, esperava-o, impertinente, a zaranzar por entre os homens que provavam a aguardente nova. Esbaforido e alheado do invulgar ramerrão, o “Zé Galo”- nome pelo qual era conhecido na povoação – entrou no tugúrio com a mesma esperança de sempre. Havendo carta, seria o anúncio do fim da via-sacra. Dele e do filho, pendurado nos andaimes dos bulevares imundos dos arrabaldes de Paris.

– Quando a gente pensa no diabo aparece-lhe o rabo! Senta-te aí, pá! Temos correio de França. Deve ser cartinha do teu “Toininho”! – trovejou a voz de garrafão ébrio do Vitalino, sem  se dar conta da estranheza da missiva. Em vez dos habituais rabiscos do filho do Zagalo, que mais pareciam electrocardiogramas apenas decifráveis pela manha do taberneiro, vinha agora uma letra morta e redonda, frases curtas e insonsas, sem nenhuma saudade desenhada.

– Desconfio que é hoje… é hoje mesmo que ele diz quando volta! Sempre vão para trinta anos lá fora – atalhou o Zagalo com bazófia, sem se aperceber como as faces do Vitalino encaneciam à medida que os olhos de ambos sorviam as palavras escritas na carta.

E, ao fim de uma semana, o filho do Zé Galo voltava a casa depois de ter entregado a alma ao Criador, de cima de um andaime, nos hediondos subúrbios de Paris.

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Claridade possível

06/09/2011

Tanta dureza, tanta severidade, tanta intransigência, para quê? Fico a pensar se a crónica acidentada dos meus dias não teria melhor acerto em latitudes polares. Estou sempre nos extremos contrários aos solstícios da vida, como se na claridade circunstancial da minha natureza humana as sombras fossem sempre frias, secas e demoradas. E neste mapa de mim me vou procurando: encontro-me, sem nunca me sentir achado.

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XVII Feira de Artesanato e Sabores de Monchique – ARTECHIQUE

01/09/2011

Parecendo que não, é misteriosa a virtuosidade casta dos artesãos desta Serra. Moldados num saber aperfeiçoado pela repetição hábil de certos gestos tão secretos e tão prosaicos, as mãos de tal modo afeitas à fineza rude da matéria, a gente olha para um tapete de linho, uma colher de pau, uma canastra ou uma cadeira de tesoura, e esquece-se da existência das palavras e do pensamento. O que os olhos vêem, são as assinaturas em letra redonda de quem, ao longo dos tempos, escreveu a história de um povo engolfado em servidão.

Imagem: Junta de Freguesia de Monchique