Archive for Dezembro, 2011

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30/12/2011

Circunferência imperfeita a contornar o número que assinala este fatídico dia natalício no calendário. É mais um ano de ajuste de contas com a faina medíocre do destino que, ao cabo e ao resto, tenho renegado e engolido sempre de má boca. E o tempo, apressado, a voar-me das mãos. O que é sofrer sem sofrimento. O que é um homem ser céu aberto a qualquer inquietação, lutar, e sentir-se a perder em cada acto. Mas, enfim, de que servem lamúrias e protestos se tudo, em absoluto, é vida e eu vivo envenenado por ela? Como um prisioneiro evadido e perseguido pelas evidências deixadas a nu no rasto abissal da bola de chumbo que trago acorrentada à consciência, há 29 anos que ando a fugir de mim

Dia de aniversário

Um risco mais no calendário

A riscar o tempo que sou:

Uma hora badalada que passou

E ecoou no campanário.

Dia baralhado e de repasto

Arisco, sucessivo, gasto

A perder a felicidade na palma da mão

E a encher no poço do coração,

De uma assentada,

Uma funda escuridão

Oca, feita de nada.

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Natal

25/12/2011

É uma história de Inverno:

Chovia.

O Menino, embrulhado em frio e calor materno

A muito custo

Adormecia.

O rei, que era injusto,

invejoso e sofria,

Mandou calar o choramingar

Que a noite ouvia.

Cega, a espada vingadora

Correu casas e ruelas,

Arrombou portas e janelas

Sem ver no curral a manjedoura.

A salvo do tirano,

Glorificou-se o Menino

E tornou-se mais humano

O frio desse Natal Divino.

 

Na edição natalícia do Jornal de Monchique, há um conto sobre um Natal terroso e concreto, onde o poder humano é tão gregário e tão essencial que parece milagre o calor doce que irradia das criaturas que o habitam.

 

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Serra, serra, serra

19/12/2011

Tem ouvidos de tísico, esta Serra. Basta um ai furtivo, um gemido quezilento escapulido a descuido, para não sei que meloso e confortativo vírus telúrico nos subir pelos pés acima, irradiando-se, sonhadoramente, pelas encostas do corpo até o coração começar a bombear terra viscosa nas artérias em lugar do sangue desbotado e agónico. Dá que pensar. A contemplar a Natureza em deslumbramentos geológicos destes, autênticos, sadios, numa liberdade solitária e transparente, quase se é verdadeiramente feliz.

 

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Reflexo

06/12/2011

Revelação misteriosa e dolorida

Que a manhã de mim me concedeu:

Ver no espelho devolvida

Uma imagem de terra remexida

Que o arado do tempo endureceu.

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Frustração

05/12/2011

Tem sido de caixão à cova. Falhanço atrás de falhanço – nas escolhas tomadas, nas responsabilidades que me são acometidas, nas reacções que me são devidas – é num confrangedor exame de consciência que vou remordendo as horas passadas. Tenho fracassado sempre. E o alvo crivadinho de setas. Pareço um doente incurável, lúcida e conscienciosamente à espera que o galgar do sofrimento termine na última pancada do coração.

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Regresso

04/12/2011

Mind the gap, please. Quatro dias de repleção completa, a ver o mundo passar na sua pressa. E torno ao torrão natal com a sensação de que aquilo que liga o homem frenético londrino ao homem rural português é pouco mais que os tiquetaques dos ponteiros dos relógios nas igrejas. Mas ainda valem muito os rituais da fé quotidiana. Ao cabo, ao cabo, à hora certa, o repicar melódico dos sinos do Big Ben é igual ao da igreja do Alferce. E há esperança quando o Homem se torna universal dentro do tempo.
-Mind the gap, please- pareceu-me ouvir, novamente, a voz cordial, magnética, de autómato ensonado, assim que os meus pés tornaram a ferir saibro português. Como que a prevenir-me de que regressava a esta terra onde só a ruína passiva e a amargura compassiva campeiam.

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Súplica

02/12/2011

Não prestes muita atenção

Ao meu cantar.

É inútil a intenção

De levar água

À nascente da tristeza a secar.

Melhor será deixar a mágoa

Rolar por serras e montes.

Deixar correr e esperar

Que a sede possa enfim brotar

Nas fontes.