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Burguesia

05/05/2012

A burguesia.  Maior que a dificuldade em dissolver-me nas multidões é o terrível temor em ver-me junto dela. Não consigo entendê-la. Falta-lhe a têmpera genuína da terra, mesmo quando, distanciada da sua força inata, em rituais crípticos e plenos de intelectualidade, lhe ergue loas ou autos-de-fé. Sou todo povo e filho do seu suor chão e verdadeiro. Como poderia transfigurar-me, trair a cumplicidade moral com as origens, ser desertor da classe onde as minhas palavras e gestos se purificam? Congraçado na delicadeza com que alguns destes prosélitos me recebem, permaneço radicado na remota pujança maciça que me impele a molhar a pena do destino no tinteiro bruto do sangue e sofrimento dos meus antepassados. Prefiro-me tal qual sou, clandestino, subversivo, idêntico a mim mesmo, pedra de cascalho rolado aos pontapés da enxurrada humana. E ainda que isso me aponte ao dedo inquisitório da ingratidão, me possa fazer passar por bárbaro ou me traga o sabor amargo da incompreensão e do isolamento, jamais assinarei o nome nas fichas de inscrição das elites. O tempo corrente é postiço, folclórico, de publicidade escancarada ao mimetismo das vontades individuais somadas no vácuo. Hoje, um homem parece valer mais quantas mais vezes o seu rosto incandescente se repetir nos palcos circenses da vida civil. Tudo isto não me importa. Renunciar é um poder instintivo de afirmação. Que nada limite o dom de Liberdade por mim sonhada no cume arrasado de todas as pirâmides sociais.

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