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Bilhete de Identidade

07/06/2012

É escusado. Por muito longe que estiquemos os elásticos dos nossos esforços, o sol crepuscular da boa consciência acaba por fazer de nós próprios sombras maiores que a altura verdadeira das nossas almas. Bem posso dar-me nu e em corpo inteiro na forja destas notas, nos contos e nos versos que vou garatujando. Nunca sou aquilo que as minhas palavras escrevem. Sou os rabos-leva das solfas rabiscadas que os outros me engastaram com fita cola e palmadas suaves nas costas, nos momentos em que, empenhadamente, tento cumprir-me na empresa da vida. Tenho tantos bilhetes de identidade quantos aqueles a quem o trato quotidiano e íntimo outorgou a pretensiosa legitimidade de os emitir. É. Nascemos, vivemos e morremos sem que ninguém nos conheça em toda a transparência. Creio que isto é que é a angústia da solidão. Só nos tornamos verdadeiramente santos nas horas pesarosas que sucedem as últimas pancadas do motor da existência. Depois, ressuscitamos conforme as escrituras infernizadas que os espectadores  da tragédia vivencial fizeram de nós e voltamos à dura condição esquecediça de humanos. Com uma diferença, apenas. A irremediável diferença de estarmos eternamente mortos.

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