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Traído na traição

23/07/2012

Quanto mais atafulhado em montes de não sei que maciço desespero, de despeitada indignação, de surda revolta, mais me apetece pegar neste caderno e prensar a viva voz de certos desabafos impulsivos entre linhas rasas de serenidade. Acontece que nem sempre me dou à claridade dessa disciplina contemplativa e tudo me sai revelado ao invés. Dou a volta ao mundo a arredondar a fraternidade das melhores amizades; sou incorrigível na lealdade aos que, denodadamente, mais admiro; aposto a seiva pessoal no matagal colectivo. Mas, tolhido por uma consciência impulsiva que transfigura a inexpressividade crónica das decepções numa tempestade agónica de crispações, já não há deferência ou ouvidos compreensivos que coincidam com as minhas razões. Tudo me é imperdoável num mar de aparências. Sobretudo ao cristal dos meus próprios olhos. A franqueza parece rudeza, a rebeldia teimosia, a exigência intransigência. A torrente temperamental rebenta o dique do pudor, mas não esvazia toda a sinceridade sedimentada nos fundões da consciência. Na roga das confidências, fica sempre uma porção de engaço por vindimar. É essa a cicuta que me atrai à cilada da minha identidade. Se digo tudo, traio os outros, se não digo, traio-me a mim.

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