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Um pisco

25/07/2012

Hoje, à mesa de uma assembleia sobre o íntimo expediente da vida, é que eu fui a jogo. E saí derrotado, é bom de ver. Um arrazoado sobre o acomodamento às vicissitudes passivas do destino. Um que via o mundo pelo monóculo de um funil, ufano de ir cego aos alvos tenazes desenhados pela determinação, desprezando, pura e simplesmente, os acessórios das investidas. O outro, de firmezas mais dúcteis, que não, que se contorcia ao insondável aceno de outras solicitações, que o caminho da boa consciência se faz numa aproximação gratuíta aos meandros das naturezas sinceras. Pisando atalhos e desvios, alargando os horizontes a novos trilhos e novas clareiras, se necessário. Arrebatado e maravilhado diante destas duas essências avessas, fui recalcando as mágoas até onde o silêncio do pudor permitiu. E quando chegou a minha demão, sem trunfos ou truques dentro das mangas, joguei a carta mais alta da rifada. Não tenho o olhar rectilíneo de falcão focado em cada pulsar da presa, nem trago o pescoço torneado de bufo-real abrindo num círculo perfeito o leque panorâmico da visão a longo alcance. Mesmo quando estas gruas de pedra monchiquenses me içam a 902 metros de perspectivas espraiadas na vontade de voar a semelhantes altitudes de espírito, não passo de um pisco com as pontas das asas cortadas. De olhos cavados, vejo tudo desnivelado, nos fundos das ravinas, à cota arrasada do meu desespero.

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