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Guadiana II

12/08/2012

Mais um giro pelo meu Portugal. E atirei-me ao Guadiana contorcido por uma curiosidade ibérica toda aos saltos. Um Douro meridional sem escarpas sulfatadas, mas com míldio no tutano, turbantes de azinho nas cabeceiras e barbichas de restolho árabe nas margens. Deitado sobre uma tarimba de mormaço, corre numa rotina cansada de lavar de fresco os pés de tanta secura, abraçando, ao fim de léguas e léguas de tédio desesperado, o mar, imerso num banho de água choca. Descendo na sua estrada de águas lisas, sonolentas, a devolver ao céu as suas mágicas centelhas luminosas e sem a aflição dos cachões, não pede meças ao seu parente duriense. Mas tal como aquele abismo de suor e significação, também este caudal é um rasgar permanente de humanidade e revelações: com paixões irreprimíveis, desilusões exaustas, esperanças descampadas, sangue estreme, sonhos desmedidos e tristezas desamparadas que se deixam arrastar num fôlego extensivo, é um Jordão expressivo onde os homens, crismados por esta pia de dignidade natural, justificados nos estímulos enigmáticos consentidos pelo meio, têm que renascer no feitio cândido e solitário de todos os dias.

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