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Roma, 27 de Outubro de 2012

30/10/2012

Depois de um dia de colunas fracturadas e alvenarias escalavradas, a arte pura, livre e criativa muralhada nas galerias do Vaticano. Depois do odor acre a urina escorrida no chão de cada beco, da mesma terrível carestia de civismo ao volante, de uma algaraviada à portuguesa no átrio do hotel, em que cada interlocutor impunha a presunção da verdade nos decibéis com que professava os seus argumentos, os seus insultos e as suas desculpas, foi dentro da cidade papal que descobri o traço maior do nosso génio exposto ao mundo inteiro nas suas ostentações superficiais. É na dissolução dos cenários universais que o carácter local se individualiza e se revela. Não. Não falo dos exemplos de há pouco, nem da história de um povo que se construiu a comerciar almas, a criar outros povos e novas nações através da mentira, do roubo e da peleja pelo sinal da santa cruz e que nem foi capaz fazer sair um único génio individual da sua força contemplativa. Nem da bula do Tratado de Tordesilhas escondida nos arquivos secretos, nem da Pietá de Miguel Ângelo, empedernida na sua triste força materna, mais forte que todas as fatalidades, a fazer lembrar a Maria Lionça do Miguel Torga. Foi numa das salas das estâncias de Rafael, um patrício que, no meio de tanta perfeição, tanta luz e tanta simetria, enchia os olhos na iluminação do seu telemóvel embevecido nas artes performativas do facebook.

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