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Má consciência

09/11/2012

Piorei. Estou derreado de angústia, de contradições e de remorsos. Só a solidão crepuscular em que a luz mortiça do quarto me envolve traz ao espírito um lenitivo de pacificação. Preciso deste sarcófago de sensações herméticas como certos anacoretas que, para reafirmarem os votos de ascetismo, necessitam, de onde em onde, de regressar momentaneamente ao trato das multidões. Deixar correr. Mas parado como uma lande no curtume. Só o silêncio se move e o coração, de cadências irrequietas dentro do peito, é unicamente uma réplica remota das ondas sísmicas que durante o dia me retiraram a lucidez ao entendimento e à afabilidade de espírito. Não sou capaz de desembainhar um argumento sem o fazer acompanhar de uma voz hirta e hostil a agredir a própria razão que a maneja. Tem sido assim o meu jogo inconformado de franqueza e sofrimento, de parada e resposta no campo da vida: no final de cada dia, a sós com a mudez dos sentidos, em vez de ouvir aplausos à consciência, ouço pateadas de indignação.

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