Archive for Novembro, 2012

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Pergunta ao mar

18/11/2012

Aqui, entre mim e o mar,
Um búzio a ressoar
O abismo azul duma pergunta.
Sem ondas de calmaria,
Em que outro lago caberia
Tanta lágrima junta?
Nesta proa rochosa da costa
O silêncio mergulha fundo.
O horizonte traz a resposta
Tão triste como eu e como o Mundo.

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O inconformado

18/11/2012

Mais um fórum público em que encarnei proficuamente o ridículo papel de marmanjo, de cão tresmalhado, de ovelha ranhosa. Uma vez mais, fui eu o condutor distraído que, julgando estar certo quando segue em contramão, não entende o morse luminoso vindo de encontro à sua marcha. O resultado, é bom de ver, foi a desolação aterradora do costume: o isolamento total e absoluto numa sala cheia de gente. Tudo a preferir o conforto da ordem estabelecida, o magnetismo centrípeto das posições dominantes contra a insignificância centrífuga de um zé ninguém outorgada por uma procuração de chico esperto. Até no plano intelectual o modelo gravitacional de Newton faz das suas. Ao cabo e ao resto, fica a consolar-me a certeza de que um homem só é verdadeiramente autêntico no exílio do silêncio ou no desterro da solidão. Hoje, calhou-me em sorte a segunda, mas era o acerto da primeira que mais me beneficiaria. Ser autêntico nesta terra de ideias em conserva, é como estar em Marte e tentar respirar.

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Aguaceiro

18/11/2012

Chove lá fora.
Qualquer hora
É boa para o inverno acontecer.
Mesmo sendo outono agora,
Todos temos quatro estações para viver.
Todos trazemos o verão num sorriso
A derreter nos corações
O gelo das desilusões
Que fustigam a alma sem aviso,
Quando estamos em primaveras de beleza
Permanentemente a reverdecer.
E aí, regressamos à certeza
Que o tempo é uma ordem de grandeza
Que passa a chover.

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Canção de embalar

16/11/2012

Dentro dos meus livros,

Cheias de madrugada e imaginação,

Há palavras de sonho dormindo em pé.

Lê-se a sua luz na escuridão,

Assina-as um sopro de inspiração,

A devoção e um auto de fé

A outro deus pagão

Que ninguém sabe quem é.

Ali, no branco papel da sua cama,

Acorda a esperança, dorme a vergonha.

E guiado pelo calor da sua chama

É com palavras que o poeta sonha.

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Greve Geral

16/11/2012

Greve Geral. Esmagado por um Governo que apenas o identifica e reconhece pelo número de contribuinte, o povo, no seu pragmatismo medular e objetivo, crente de que os homens públicos nem tão pouco merecem o chão que pisam, arrancou a calçada à rua e arremessou-a contra a autoridade. Esta, sem capotes à medida maciça da chuva, meteu a artilharia toda e dissipou a tempestade à bastonada, evidentemente. Portugal também é isto: forças desperdiçadas, sem rumo nem fim, que até para dizer basta precisam pedir a bênção violentada da polícia.

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Bucolismo rude

14/11/2012

– Aquele poemazinho sobre as vistas do talefe da Fóia, hein!? Aquilo é que é bucolismo!

– Pois, por mim, é tudo isso que ele não é! – protestei eu, inconformado.

Nunca, por nada, fui bucólico, idílico, dado a harmonias campestres que só através do génio de um Eça me cabem nos mapas literários e vivenciais. Um chão que só é capaz de dar leiras de couves, sem gangrenas, que se não revela em carne e osso, com as chagas avivadas pelo sal agreste dos elementos, não me atrai.
A mando do ofício, simplifico a realidade em planisférios, dou-lhe escalas e pormenores, invento fronteiras. Convenções euclidianas logo a seguir transpostas pela letra redonda da poesia que, nos seus espantos, nas suas angústias, nas suas fantasias, tudo concede e imortaliza como um Globo em permanente rotação ao redor de um eixo de inquietações, e em revolução em torno dos Sóis do amor e da liberdade. É o geógrafo a levantar paredes e o arremedo de poeta a derrubá-las. Dois mundos baralhados numa  comunhão fraterna. A ambos, une-os a ideia universal de que o Homem não o é sem o rasgo definidor do espaço. O que se vê e o que se intui. O espaço que o enquadrou na superfície do passado e o espaço que o há-de enquadrar nos lugares futuros.
É por isso que, ao arregalar os olhos nestas paisagens nativas, se me insinua na retina a condenação telúrica de deuses implacáveis a impor-se a calmarias luxuriantes. Por mim, toda a serrania é violência. Uma violência prodigiosa a dar corda aos sentidos.
Olhem, com olhos quiromantes, a fundura dos abismos engolindo a ostentação sublimada e vejam ao menos as forças ciclópicas das mãos que dobraram o chão. Ouçam o sôfrego protesto torrencial dos regatos a cantarem tragédias. Sintam tremer o chouto gigantesco de homens anónimos galgando degrau a degrau a escadaria de socalcos no volume dilatado das encostas. Não! Tudo aqui é violência furtiva, virginal, bela. Um braço de ferro em equilíbrio; um corpo a corpo pegado entre Homem e Natureza feito pela mão da raiva, pelo músculo do sofrimento, pelo nervo da erosão e pela seiva da pobreza a troco de papas de fome e garrochos de medronho. Para contemplar semelhantes paisagens na sua fatídica inteireza e significação, é preciso que o peito não expluda a dimensioná-las no espírito. E nem todos trazemos calos vivos na lembrança, que nos permitam sentir tamanha dureza por baixo de tão pacificada beleza.

Fotografia: Laura Mexia

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Erupção emotiva

13/11/2012

Explicava-lhe que não, que todas as hipóteses de existir um vulcão adormecido no cocuruto da Picota eram meras assombrações especulativas, apenas explicadas à luz das formulações teoréticas da imaginação, enquanto deixava uma réstia de positivismo lírico enfrentar a colina de soslaio, a desejar que aquela borbulha geológica rebentasse de uma vez por todas e trouxesse à tona uma nova rocha-mãe, natural, feminina, seca, disponível, de saias subidas, sem espartilhos a apertar-lhe a silhueta, onde pudesse afundar com maior firmeza as raízes da esperança.

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Onze de novembro de dois mil e doze

12/11/2012

Cá ando, desaustinado, de anulação em anulação, a perder azimutes. Como um daqueles atores de farsa a quem foi atribuído o papel principal do próprio destino, decorou diligentemente as suas deixas, cronometrou os tempos de entrada e de saída de cena, estudou os interlocutores por dentro e por fora e, desfilando com a perícia possível pelos palcos, cenários e plateias que a vida lhe foi confiando, não passou de um atormentado figurante a contracenar com a inconsciência dos instintos.

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As maravilhas da Poesia

11/11/2012

A poesia. A folha perene de todos os destinos caducos. O fruto absoluto de pomares relativos. As palavras florescidas nos descampados espinhosos da vida. Dar-lhe tudo sem nada ter, abolir-lhe o convencional, olhá-la no âmago de todas as sensibilidades para que o leitor se possa sentir perfeitamente sintonizado com ela e seduzido a assinar um termo de responsabilidade no final do poema.

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Angústia

09/11/2012

Quando virás, hora da paz?
O dia, tanto me faz,
Desde que cessem os maus tratos
Entre a casa de Caifás
E a casa de Pilatos.
Para quando a redenção?
Um dia de justificação
E de Juízo,
Que traga numa mão
O Paraíso
E na outra a libertação
De que preciso.