Archive for Novembro, 2012

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Homem sismo

21/11/2012

Sempre gostava de ver os estremecimentos insofridos que por aqui vou despejando registados no rasto de uma linha trémula sobre o papel de um sismograma. Perfil ultra-sensível subindo e descendo consoante as desafinações inquietas dos dias e, mormente, de mim mesmo, quem o lesse não encontraria escala emotiva onde balizar todo o sofrimento dentado. Richter sentir-se-ia o agoirento responsável pela magnitude dos abalos, Mercalli pelos escombros avivados pelo andar destrutivo do tempo.

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Fruta da época

20/11/2012

Peguei num pé de ilusão
Dum fruto despido ao meio
Pelo corrupio de uma faca.
Planteio-o, reguei-o,
Pus-lhe bosta de vaca.
Criou raízes, pegou de estaca.
E esperei que dum rebento
Florisse e crescesse
Um novo fruto sumarento
Que a toda a gente apetecesse.
Nem que fosse por desfastio
Deste pomar pobre e sombrio
Onde o sol nada amadurece.

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A minha Picota

19/11/2012

Ontem, o mar, hoje, a montanha. Desanimado, meti-me pelos cerros acima até chegar ao topo da Picota, onde alívio agora a minha aflição desiludida seguindo religiosamente a prescrição de uma dieta geológica à base de micas e feldspatos. Perdido como um cão apavorado pelo rebentamento da pólvora, tinha de ser aqui, no cimo desta penedia nua, no centro de uma pobreza cristalina, que eu podia encontrar-me na tradução física exterior dos meus calvários interiores. Uma alma solitária, atribulada, purulenta e em carne viva, submissa à realeza de uma mole titânica, também ela descarnada de revestimentos, exercendo um domínio imperial sobre a restante paisagem estendida a seus pés. Lado a lado, um vulcão de lava eruptiva presumida e um vulcão de lava emotiva reprimida a compreenderem-se nos silêncios gretados das pedras. Exageradamente, tanto tenho ampliado com a lupa dos sentidos a rudeza inexpugnável destes rochedos sieníticos, que dou por mim a desejar ser um aditamento mineral da sua fácies, apenas posto a nu nas areias estéreis de uns míseros poemas cantados às erosões da vida.
Fez-se tarde. Um hálito frio de nortada lambe tudo e barbeia-me a cara em restolho. Lá em baixo, na vila, charutos de fumo acendem-se sobre os telhados, esbatendo a nitidez às pregas da paisagem. Chama-me a lareira doméstica. Deixo de ser espectador enfeudado à Natureza e desço de novo até mim; até esse vale de lágrimas onde serei outra vez serras e serras de tristeza agreste até perder de vista.

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Pergunta ao mar

18/11/2012

Aqui, entre mim e o mar,
Um búzio a ressoar
O abismo azul duma pergunta.
Sem ondas de calmaria,
Em que outro lago caberia
Tanta lágrima junta?
Nesta proa rochosa da costa
O silêncio mergulha fundo.
O horizonte traz a resposta
Tão triste como eu e como o Mundo.

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O inconformado

18/11/2012

Mais um fórum público em que encarnei proficuamente o ridículo papel de marmanjo, de cão tresmalhado, de ovelha ranhosa. Uma vez mais, fui eu o condutor distraído que, julgando estar certo quando segue em contramão, não entende o morse luminoso vindo de encontro à sua marcha. O resultado, é bom de ver, foi a desolação aterradora do costume: o isolamento total e absoluto numa sala cheia de gente. Tudo a preferir o conforto da ordem estabelecida, o magnetismo centrípeto das posições dominantes contra a insignificância centrífuga de um zé ninguém outorgada por uma procuração de chico esperto. Até no plano intelectual o modelo gravitacional de Newton faz das suas. Ao cabo e ao resto, fica a consolar-me a certeza de que um homem só é verdadeiramente autêntico no exílio do silêncio ou no desterro da solidão. Hoje, calhou-me em sorte a segunda, mas era o acerto da primeira que mais me beneficiaria. Ser autêntico nesta terra de ideias em conserva, é como estar em Marte e tentar respirar.

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Aguaceiro

18/11/2012

Chove lá fora.
Qualquer hora
É boa para o inverno acontecer.
Mesmo sendo outono agora,
Todos temos quatro estações para viver.
Todos trazemos o verão num sorriso
A derreter nos corações
O gelo das desilusões
Que fustigam a alma sem aviso,
Quando estamos em primaveras de beleza
Permanentemente a reverdecer.
E aí, regressamos à certeza
Que o tempo é uma ordem de grandeza
Que passa a chover.

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Canção de embalar

16/11/2012

Dentro dos meus livros,

Cheias de madrugada e imaginação,

Há palavras de sonho dormindo em pé.

Lê-se a sua luz na escuridão,

Assina-as um sopro de inspiração,

A devoção e um auto de fé

A outro deus pagão

Que ninguém sabe quem é.

Ali, no branco papel da sua cama,

Acorda a esperança, dorme a vergonha.

E guiado pelo calor da sua chama

É com palavras que o poeta sonha.