Archive for Dezembro, 2012

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Trinta

30/12/2012

Dia fatídico acontecido.

Tão íntimo e tão meu,

Que sem saber que me deu,

Ocorreu eu ter nascido.

Dia de sol nas lonjuras,

Mas de brilho frio, desagasalhado,

E o calor chega apagado

Ao fundo das minhas amarguras.

Dia de ter nas folhas

A seiva verde da raiz,

Mas que a vida, no toco das escolhas,

Nunca quis.

Um dia mais de desenganos

Correndo na andança

Do tempo de ser

Há trinta anos

Uma criança

Que não sabe crescer.

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Natal II

25/12/2012

Noite de frio e de geada branca,
Com a pura inocência da primeira.
A flor da infância nasce ainda mais franca
Que a própria natividade verdadeira.

E é o mesmo sorriso transcendente
O da paisagem humana que nos rodeia,
No rasto de uma estrela incandescente
Sobre o berço do Menino na Judeia.

Noite de todos os milagres renovados
E de toda a esperança renascida
Em gestos compassivos sublimados
Nos presépios da vida.

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Natal

24/12/2012

Natal…
Sem burro nem vaca no curral,
Os prados sem ovelhas,
Os telhados sem neve nas telhas,
Mas em tudo igual ao original,
Debaixo dum veludo magistral
Onde brilham as centelhas.
A dois mil anos de distância,
O tempo, na sua itinerância,
Mudou a concordância
E os rostos das figuras.
Num presépio de humanas criaturas,
Meu pai, um José habitual,
Cheio de sonhos nas mãos duras,
E minha mãe, uma Virgem temporal,
Empalhando a manjedoura de ternuras,
Dão um alívio sobrenatural
À cruz das minhas desventuras.

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Música da chuva

21/12/2012

Embora carregado de dilúvios impertinentes e borrascas agoirentas como eu ando, durante a madrugada passada é que eu arrolei no meu íntimo os fonemas ostensivos e líricos da chuva. À noite, recolhidos nas vidraças da imaginação, enquanto ouvem o tamborilar das bátegas, os sentidos são convocados a novas rimas, novos versos e a novas melodias idiossincráticas. E logo a consciência reage. Logo a lucidez se põe às apalpadelas na tentativa desaustinada de clarificar as penumbras interiores. E são já os pensamentos que dançam. Parece que se apanha a música encantatória da eternidade de ouvido e a reproduzimos serenamente nos silêncios entre os aguaceiros. Mas só até ao instante em que, algures na vizinhança, um qualquer galo – esse indefectível profeta do tempo – nos acorda novamente para a precariedade transitória da vida.

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Cão

20/12/2012

Velho bloco de notas,
Imaculado confessor
Onde assento as quotas
Que à vida sou devedor.
Em cada folha uma soma de emoções
Acumuladas no futuro,
Letras vencidas nas paixões,
Créditos malparados de desilusões,
Balanços e taxas de juro.

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Mito

19/12/2012

A manhã, adiada numa neblina espessa,
Embrulhava o céu numa promessa
De quatrocentos anos por cumprir.
Como um rei que após partir
Não mais regressa
Da eternidade de Alcácer Quibir.

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Et tu, brute?

15/12/2012

Há uma coisa pior que não ter amigos: é ser atraiçoado por eles. A amizade… Bem tenho tentado estar à altura amorosa da empresa concedendo-lhe a honra leal de todos os préstimos. O pior é quando sou eu requerer-lhe as virtudes. Quando chega a minha vez de precisar que os outros me dispensem um cibo de compreensão, fico de mão estendida a contar os trinta vinténs da minha solidão.