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Caligrafia infantil

06/12/2012

caligrafia_infantil

Estava frio, calcinado, tolhido por uma apatia profunda que me enferrujava os sentidos e estrangulava o crivo emotivo. E, de repente, a visita surpresa da professora da escola primária a dar um novo pulsão ao rodízio. Trazia duas folhas estampadas de fotografias de um menino meia-leca, com cabelo cortado pelos bordos de uma saladeira, dentuça de esquilo e olhos muito grandes, como duas luas cheias orbitando num rosto trigueiro e feliz. Ao lado, a legendar a imutabilidade pictórica, uma série de palavras manuscritas, electrocardiogramas inocentes serrilhados na branca nudez da infância.

– Era a minha letra? – fugiu-me do coração perplexo e hesitante a dúvida.

– Era, pois!

Reconheci-me imediatamente nos retratos, mas não na estranha caligrafia. Foi como se só eu tivesse envelhecido e deixado uma virtude oculta que a carteira do tempo nem descarnou nem aboliu, à espera que a rematassem a localidade, o estado do tempo, a minha assinatura e a data de hoje.

 

 

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