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O gigante anão

09/12/2012

7 de dezembro de 2012, a meio caminho entre o Algarve e Lisboa. Agora que palmilho um pedaço mais do meu Portugal concreto e fisiológico, observando os córregos transbordantes de uma graciosidade hemodinâmica, libertado por esta planície alentejana que, mesmo no restolho do lusco-fusco, me aclara todas as perspectivas de imensidão numa paisagem antropomorfa, volto novamente àquela devoção panteísta à geografia pátria a que ontem aludia. E tenho que dizer-lhe qualquer coisa do descampado deste banco de trás, de onde recebo a vaia prolongada no reflexo da vidraça. Assim me impelem o instinto de namorado e a boa educação.
Se na convivência humana me sinto sempre a caminhar em bicos de pés sobre um arame adelgaçado de aniquilações, na envolvência exuberante do natural posso ser o pouco que sou serenamente, aberto a um mar raso de possibilidades profundas, sem condicionalismos de nenhuma ordem. Só nos rios barrentos e indisciplinados tenho a íntima certeza de que também trago terra no sangue, nervos torrenciais no (mau) génio e aluviões fecundos na imaginação. Assim deslumbrado e vivo, entre serranias e planuras, ora pareço um gigante, ora pareço um anão subindo e descendo freneticamente os desníveis disformes que o destino me consente.

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