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Os barulhos do silêncio

07/01/2013

Não sei como há-de ser, mas é impossível manter-me assim. Por mais que me esforce, não consigo dar volta a isto. Mato-me a endireitar os torcegões que me vão infligindo as cabriolas da vida. Em pequeno, quando a faina ia apenas no princípio, sobrava pano para mangas. Uma pálida sombra , um ínfimo desgosto, um pânico ou um amuo mais insignificantes, sossegavam-se facilmente na ladainha absurda de uma qualquer realidade fingida. Frutos da paciência instintiva e da compreensão piedosa, cada palavra, cada frase, cada gesto dos meus pais, emparedava, infinitamente, as atribulações infantis num redil de esquecimento. Fosse qual fosse a mágoa, a mesma justificação desembaraçada trazia prescrita a imunidade necessária à superação das angústias futuras. Agora, aos trinta, e com a viagem a meio, é pior. O fel das triagas morais insinua-se por tempo indeterminado na lembrança e a responsabilidade da existência mingua-se-me numa solidão acobardada. Pareço um surdo no fundo do abismo. Há as razões dos circunstantes tirando nabos da púcara, as vozes dos amigos metralhando argumentos, as sereias dos livros cantando ilusões, os solilóquios da consciência ecoando boas intenções, e, mesmo assim, sabe Deus os silêncios de amargura que ficam por romper.

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