Archive for Fevereiro, 2013

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Rosnar de Tessalónica

14/02/2013

Estava rabujado, fraco de pachorra, e com as duas páginas mal-humoradas de Os cães de Tessalónica, do Askildsen, tomadas ao pequeno-almoço, bem frescas no génio. Só consegui arremeter de raspão à disponibilidade desgarrada na provocação:
– Não se lastime tanto, rapaz! Exorbite as suas qualidades. Olhe que as tem! Sempre há-de achar algumas no espelho das palavras que lê nos seus livros.
– E para quê? Dançar ufanamente ao rufar das ovações da consciência é meio caminho andado para ferir-lhes a legitimidade de morte.
– Então reproduza aquelas louvaminhas que lhe vão deixando de onde em onde! – E foi a faísca no rastilho.
– Já olhou bem para a Lua?! Acende-se todas as noites sem necessidade de acessórios fluorescentes a comprovar-lhe o brilho no escuro. No entanto, cumpre diligentemente o seu papel…
Pobres de nós! Não conseguimos conduzir discretamente o carro da humildade sem arroubos de luzes a encandear quem nos cruza.

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Poema

13/02/2013

Não é meu, nem teu, nem de ninguém,

É um quebranto que vem

Quando menos se pensa.

Nasce quando nasce,

Cresce do nada, faz-se

Sem pedir licença.

Às vezes, tristeza em festa,

Poema é a arte do sensível

Que nos resta.

A última coisa tangível

Que se presta

A alcançar o impossível.

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Um prado sofrido

13/02/2013

Casava bem com um rebanho de ovelhas redondas como nuvens a pastar num céu verde que hoje vi junto à estrada. Elas a ruminar tufos de gramíneas e eu os cardos retardados do meu sofrimento.

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Entrudo

12/02/2013

Entrudo. O único dia do ano em que me posso apresentar livremente aos outros, de nariz de batata e cabeleira postiça, sem olhar ao que dizem as censuras ou os preconceitos disfarçados de códigos morais. O difícil é dar-me a conhecer nos restantes trezentos e sessenta e quatro dias de corso. Se quisesse desafivelar a máscara, teria de arrancar pele verdadeira. E toda a gente sabe o horror que é ver passar um semelhante em carne viva.

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Sopro sonoro

11/02/2013

Vento…
Música da monotonia
Tocada de todos os quadrantes,
Uiva agora como uivava dantes
O sopro frio da melodia
De pequenos homens gigantes
Moídos pela melancolia.

Vento…
Som da Natureza a respirar
As notas de uma canção
Ensaiada no pensamento
E nas cordas da imaginação –
Velas do esquecimento
Ou mós da inquietação?

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Queda

10/02/2013

Alpinista desajeitado do sentir
Pendurado a uma corda de versos,
Deixo-me levar até cair
Nos sentimentos dispersos
Dos abismos da vida.
Estico a tensão ao baraço,
Vejo-o partir pelo cansaço,
E fico sem coração para a subida.

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Não durmo!

09/02/2013

Nova noite em claro, de ouvidos tapados pelo chiar monótono do silêncio e com os olhos abertos ao panorama confinado da escuridão. Não durmo patavina! É como se tivesse sido enterrado vivo e esperasse ansiosamente pelo sol nascente para poder ser resgatado ao peso morto da sepultura.