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Poesia erudita

19/03/2013

Não sei se é por insuficiência de inteligível ou se é por carência de sensível – até ponho como condição que seja por ambas – mas as vozes dramáticas de certos candidatos a poetas cantando versos nas praças virtuais não me comovem um migalho sequer. Convictos de que revelam os segredos do inefável, metem o dicionário no microondas, esperam meia dúzia de minutos, juntam-lhe corantes líricos e apresentam-nos, ainda a fumegar, versos requentados. Versos de cegueira branca a negar à própria poesia o seu dom essencial: o ritmo. Pound sabia-o bem: a poesia está tanto mais próxima da sua essência quanto mais próxima estiver da música. E a maioria destes trovadores não nos consegue dar mais que estrofes eruditas ensaiadas num chanfalho. Entre a erudição expatriada de sentido dos sábios dos mistérios órficos e a grafia desajeitada e expressiva dos poetas populares, é a lira marginal dos segundos mais me enche o coração. Têm as mãos besuntadas de terra e tocam de improviso.

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