Archive for Março, 2013

h1

Poesia erudita

19/03/2013

Não sei se é por insuficiência de inteligível ou se é por carência de sensível – até ponho como condição que seja por ambas – mas as vozes dramáticas de certos candidatos a poetas cantando versos nas praças virtuais não me comovem um migalho sequer. Convictos de que revelam os segredos do inefável, metem o dicionário no microondas, esperam meia dúzia de minutos, juntam-lhe corantes líricos e apresentam-nos, ainda a fumegar, versos requentados. Versos de cegueira branca a negar à própria poesia o seu dom essencial: o ritmo. Pound sabia-o bem: a poesia está tanto mais próxima da sua essência quanto mais próxima estiver da música. E a maioria destes trovadores não nos consegue dar mais que estrofes eruditas ensaiadas num chanfalho. Entre a erudição expatriada de sentido dos sábios dos mistérios órficos e a grafia desajeitada e expressiva dos poetas populares, é a lira marginal dos segundos mais me enche o coração. Têm as mãos besuntadas de terra e tocam de improviso.

Anúncios
h1

Prova dos nove

19/03/2013

Passo os dias a tirar provas dos nove à minha natureza. Crio mapas absolutos abstraído em coordenadas relativas. Vivo em excesso, sinto em excesso, penso em excesso, reajo em excesso, sonho em excesso, protesto em excesso, erro em excesso e sofro na mesma medida. A contrapartida é comer pouco, dormir pouco, ler pouco, transigir pouco, perder-me pouco, acomodar-me pouco, iludir-me pouco e conhecer-me pouco a descobrir nos outros o pouco que sei de mim. Para tapar os pudores da consciência, deixo a nu os safanões do instinto. A minha vida é uma balança indecisa bamboleando entre a tensão emotiva de dois mundos: se um dos braços desce aos abismos do sofrimento, já o outro sobe aos píncaros da esperança. Os equilíbrios são o lugar nenhum nos pratos de uma existência e a minha pesa-se no desterro caótico e maciço dos extremos. Os extremos inéditos da singularidade.

h1

Cronograma

17/03/2013

É bonita a corrida da Juventude,
Quando a única virtude
Que lhe reconhecemos
É essa eternidade fingida
De não saber que envelhecemos.
Só depois, à hora da partida,
Lhe damos a efémera medida.
Os caminhos são mais estreitos,
Os dias demasiado pequenos.
Nos corpos já não tão perfeitos,
O tempo é somado por menos.

h1

Eflúvio

12/03/2013

Um caudal canta atrás de nós.
Um rio persegue a foz
Na música calma da Lua.
Há nela qualquer coisa que flutua…
Um tom limpo no ar líquido da voz
Igual ao desatar de nós
Correndo no respirar da tua
Quando somos a natureza a sós
E molhas beijos no meu rosto.
Como se eu fosse calor de estio
E tu a sede deste rio
Beijando as serras em Agosto.

h1

Madrigal de oito de Março

11/03/2013

Em mil oitocentos e cinquenta e sete,
Oito de Março foi hora além do dia.
O grito que se ouviu e se repete
Ainda hoje é feminino e é poesia.

O coro de ordens que oprimia
Na boca insensível dos patrões,
Esgotava o fulgor nos corações
Daquelas a quem o silêncio destruía.

Havia capital para multiplicar
Por filhas, mães e esposas.
E existia o amor a emancipar
As que pediam pão e rosas.

Desse histórico dia de greve,
De liberdade nas mãos de um ser,
Vibra ainda o ânimo nunca leve
Na vontade de uma Mulher:
Cada direito é uma conquista que se lhe deve,
Basta querer!

h1

Incultura

08/03/2013

Esta tarde, na paragem de autocarros, é que eu pude demorar as ideias na velha carreira problemática da nossa incultura. Lado a lado, enquanto esperavam a camioneta, duas adolescentes bebiam a calma da tarde, fazendo os possíveis por ultrapassar os atrasos da própria vida nos giros do mundo. A portuguesa, enviava mensagens pelo telemóvel, a alemã lia o Werther.

h1

Regresso

04/03/2013

Regresso à minha escola secundária, onde falei sobre poesia e sobre livros aos alunos que me sucederam nas carteiras. Diante da mesma ardósia onde li em voz alta D. Dinis, Garrett, Bocage, Camões, Antero, Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Torga, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen e outros predestinados da lira, foi-me consentida a ocasião de dedilhar as cordas vocais e dar à atmosfera um ar dos meus próprios versos. Exposto às fatias perante um auditório de jovens, foi como se assinasse no livro de ponto o sumário judicativo do futuro. Só eles, na secreta lucidez de amanhã, estarão habilitados a dizer se as magras palavras que depositei hoje no mealheiro da esperança trarão juros suficientes para que possam reparti-los caridosamente comigo na velhice.