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Microconto II: O encantador de serpentes

25/04/2013

MICROCONTO II – O encantador de serpentes.

– Desta vez é a sério – dizes. – Mesmo! – Os teus amigos fazem troça, desaparafusam os indicadores da extremidade das testas. A festa parece propícia à diversão geral, menos à tua.
És o D. Juan do grupo, o pêssego, cento e oitenta e cinco centímetros de musculatura de arame. Uma fibra de puro sangue lusitano. Andas realmente marado. Tentas disfarçar a travessia do sahara amoroso tossindo um cigarro mal fumado. O teu melhor amigo ri-se de ti, chama-te encantador de serpentes e desfecha-te uma bofetada moral com o bife cru de todos os descaramentos:
– Devias considerar meter-te na política.
Não acredita em ti. Bem, na verdade, depois de traíres, ignorares e desapontares reiteradamente um balúrdio de miúdas adoráveis que te veneraram como a um santo, ao ponto de as bem-aventuranças dos mártires parecerem heresia, já ninguém acredita. Ninguém.
Pedes-lhe que olhe, não agora, que dá uma bandeira do caraças, dali a pouco, para a miúda no canto da sala que te despeja uns olhares avassaladores dentro dos quais julgas ver cartas de amor por abrir.
Avanças para ela, decidido. Abres a boca, mas sentes-te a respirar na lua. Mal consegues falar.
– Não… – interrompe-te. Sorri maliciosamente como se te tivesse acabado de mudar a fralda. O resto é sancionado pelo silêncio uníssono na voz de ambos:
– És um cretino!

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