Archive for Abril, 2013

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Sinais trocados

15/04/2013

É interessante, a matemática do processo. Em dias anquilosados como o de hoje, a presunção de que a paisagem pode muito bem ser um estado de alma está de tal modo explicitada cá dentro, que me basta encarar a infindável harmonia universal desta que agora me envolve para estragar tudo. Hostil e afastativo, desterrado cá nos meus desterros de angústia, em vez de me engrandecer integrado nela e com ela, diminuo-a, profano-a, amesquinho-a. Mais com menos dá menos, diz a regra dos sinais.

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Sísifo

14/04/2013

Tal como eu, este meu amigo é um Sísifo condenado a driblar o destino embalando uma pedra de interrogações pelas serranias da vida fora. Filhos de um tempo sem idade, uniu-nos não sei que laço fraterno de rebeldia precoce. Garotos ainda, logo no primeiro dia de aulas, insubmissos às regras mais elementares da vida colectiva, fugimos da escola. Sem outro plano de fuga que não o instinto infantil, não passámos de cem metros além muros. A consequência da evasão foi,  a descoberta do fogo nas orelhas. Desse dia permanece a forma incorruptível desta amizade duradoura, apertada pelas mãos cegas da inocência, cujo nó cego, apesar de nem sempre ser lembrado com a frequência exigida, nenhum esquecimento conseguirá desatar.
Dizia-me, há dias, este amigo, a propósito disto de ter a boca arrebentada pela febre de tantas perguntas sem resposta, enquanto víamos a pedra que arrastamos a desembestar aos trambolhões pela ladeira da ilusão abaixo:
– O nosso remédio é ler e escrever umas coisas.
Concordei imediatamente. Os livros que trago guardados na lembrança são boas testemunhas. Mas como até nas certezas mais duradouras tenho este maldito defeito de fabrico, reajo, uma vez mais, ao retardador. Escrever é a mais fiel falsificação da realidade. Por muito que a compaginação das palavras na torrente de um desabafo rebente os diques do sofrimento, nunca se diz tudo. Em cada mensagem enviada, uma parte da revelação é o concreto obscuro, a outra, adivinhação. Ou por pudor, ou por falta de amplificação de decibéis na consciência, ou, simplesmente, porque aqueles a quem falamos não têm ouvidos sensíveis às nossas súplicas, fica sempre um lodo de traição incompreendida a sedimentar-se nas batimetria de cada narrativa.

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Contradição

09/04/2013

Não tenho redenção!
Vivo numa confusão
De perguntas urgentes
Sempre presentes
No meu coração.
Entre o perto e as lonjuras,
As certezas, se existentes,
São novas perguntas futuras,
Dúvidas persistentes,
Quanto mais permanentes,
Mais inseguras.
Sem outro pão que me valha,
A fome de amor que sinto agora
É esta fartura, esta migalha
Que em faltando me devora.

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Acerto de contas

04/04/2013

Fizeste asneira da grossa e ela acertou-te o passo: deixou-te. Na tua cabeça, uma confusão do diabo, um furacão de culpa e de remorsos por apaziguar. Um vento a soprar de dentro para fora. Não dormes a ponta dum chavelho e acordas como se tivesses corrido a maratona olímpica e terminado no último lugar. Abres a janela do quarto e sentes vontade de esborrachar-te do nono andar do cubículo desarrumado a que chamas casa, de encontro ao magnetismo impulsivo do chão sujo da rua. Reparas que o dia nasceu ao sol. Mudas de ideias. É um dia perfeito para ela te perdoar. Não te perdoa. Não te perdoas. O mundo não acabou.