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Microconto III: A Culpa é Tua

02/05/2013

No princípio é amargo, mas engoles. Acreditas que o que te está a acontecer é um tronco de tortura do qual sairás uma melhor pessoa. Não há razões para te afligires. És um rapaz acertado, nunca te preocupaste muito em estudar, sacaste umas notas maravilhosas na faculdade, que deixaram a marrona da turma a espumar de raiva, deste-te ao luxo de responder em branco às perguntas mais óbvias de entrevistas de trabalho em empresas cujos administradores faziam figas sobre o teu currículo. Simplesmente, preferiste voltar ao ground zero da tua infância.
As amigas da tua mãe dizem-lhe que, por teres um bom emprego, seres bem-educado, solto de vícios e estares presente em tudo o que é festas tradicionais, és o genro ideal. Mas as filhas, que até acham a tua mãe uma querida, estão mais preocupadas com os teus dentes encavalitados, com os teus pêlos como arame farpado nas pernas, com a tua ligeira falta de altura e de cu para encheres umas calças, com a tua calvície adivinhada na nuca. Nunca se verão a chamar-te “paizinho”. Estão-se a marimbar para o facto de seres um tipo pensante por teres lido Tolstoi. Elas nem sabem quem é Tolstoi.
Até que um dia, uma gorda bêbeda no bar que frequentas repara em ti e insiste em chamar-te pelo nome espanhol do treinador «guapo» de uma equipa de futebol. Munido de alguma auto-estima extraordinária, partes para todos os truques do engate junto das gajas mais giras, mas sem êxito. Ofereces prendas, estás presente nos momentos mais difíceis, disponibilizas-te para fazer o PowerPoint da defesa da tese de licenciatura. Nada. Continuas cem por cento a zeros.
– Só a mi gos! -assevera uma a quem te atiras de cabeça, a partir de uma declaração de amor adaptada de um poema do Almeida Garrett.
Começas a ser visto pelos teus amigos como o microondas, “o tipo que as aquece para eles, depois, comerem”. E, claro está, flipas completamente. Passas a viver do ar, ficas muito tempo parado debaixo do sol à espera da fotossíntese para, finalmente, conseguires pensar. Quando o fazes, trocas-te todo. Os nomes das pessoas. A geografia dos objectos. Viras a ordem das acções ao avesso. Chegas mesmo a colocar pasta de dentes no piaçaba e acordas no exacto instante em que as cerdas se aproximam da tua boca.
– Meu, o que é que se passa comigo?! – ralhas a ti próprio.
Normalmente, cobardolas como tu aliviam-se desse peso no peito com uma medida universal: 9 milímetros. Tu não. Deixas- te levar pelo mau feitio, deixas o bom menino que foste um dia ir-se embora de vez, ficas a achar que toda a gente te quer tramar. O mundo é um mau lugar para se viver. E a culpa disso é inteiramente tua.

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