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Microconto: Carlos

10/05/2013

Carlos, hoje vi-te no moinho. Quando foi a última vez que estivemos assim, a menos de um metro um do outro, partilhando as mesmas moléculas de ar? Talvez há uns quinhentos anos. Continuas igual, Carlos. Os mesmos olhos de granito apagado, o mesmo cabelo seco de seara em restolho, estás magro como uma vassoura. Quando te apertei a mão e olhei para as nossas palmas unidas pelos dedos a subir e a descer em baloiço, vi os nossos pés. Nos teus, as botas de couro de sempre; nos meus, uns ténis da puma altamente sofisticados, com um peso equivalente a onze bolas de pingue-pongue. Será que tu pesas mais que os meus ténis de marca, Carlos? Estás um lingrinhas, Carlos. Tu tinhas uns pulmões de ferro, eras mais rápido que o space-shuttle, apesar de seres completamente impiedoso para com a bola. Mas tinhas fibra, Carlos. Agora os teus músculos mirraram, têm a espessura das mortalhas dos teus cigarros compulsivos.
Carlos, reparei que continuas metido contigo mesmo, que te recusas a sorrir. É impossível adivinhar quantos comboios de tristeza terão passado por cima de ti. A tua pele é um sarcófago selado a proteger o exterior das mãos-cheias de angústia que te vão explodindo por dentro. És uma espécie de Chernobyl do sofrimento, Carlos. Sei que tens aguentado montes de merdas. Disseste-me mais ou menos isso no preciso instante em que sacudiste as mãos como se o peso invisível do ar as queimasse, como se tentasses expulsar do teu corpo a unha negra do teu polegar direito.
Depois de me confessares que estás a receber o subsídio de desemprego, acrescentaste:
– Um gajo habitua-se a tudo.
Quando me perguntaste que cara era aquela que eu tinha, estive para dizer-te que estava chateado com o padre por me ter dito para não repetir a gracinha de ler com gestos contundentes as sagradas escrituras, que aquilo não era nenhuma homilia. Tu sabes, Carlos, conheces-me, eu tenho tornados nas mãos quando leio em voz alta. As palavras irradiam-me pelo sistema nervoso central até às vísceras. Eu não te disse isto, mas devia ter dito, Carlos. Talvez te conseguisse fazer sorrir uma única vez na vida. Talvez te pudesses rir de mim às gargalhadas! De como sou um egoísta, Carlos. De como sou fútil. De como o meu sofrimento insulta o teu por não ter razão de existir. De como a tua angústia dava para partir o Mar Mediterrâneo em dois, da mesma forma que cada um de nós seguiu a sua vida quando decidi estourar as economias de uma vida aos meus pais metido no meio de livros e tu decidiste ficar no meio da tua lassidão.
Desculpa lá, Carlos, meu amigo, príncipe da simplicidade, por ter-me esquecido que existias durante este tempo todo. “Quinhentos anos”, disseste tu, como se eu fosse o Adamastor.
Desculpa por não ter sido capaz de ter sido teu amigo. Por não estar aí, ao pé de ti, enquanto limpas os suores frios a garrafas de cerveja a ver se te consegues embebedar o mais que puderes. Não tens mulher, não tens filhos, não tens trabalho, não tens ninguém. Só te tens a ti, a vida obrigou-te à solidão. Quem é que pode censurar-te?
Sabes, Carlos, pensei em perguntar-te como é que tinhas arranjado essa unha negra no polegar direito. Mas, agora, já sei. E não me sinto nada feliz por isso. Foi por essa unha negra que eu, hoje, não sou mais um azarado da vida como tu.

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