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Querida solidão

04/07/2013

Envolvido num silêncio abafado – o resto do calor de cigarras que foi a tarde – vou assentando no caderno mais uma nuvem de inquietações reduzidas ao pó do verbo. Do mesmo modo que a poeira assenta nos caminhos, redefinindo-lhes a lonjura e a aridez depois da turbulência de uma rajada de vento ou do trânsito frenético das caravanas, também eu espero pelo final do dia para pôr em cursivo a poalha levantada na roda-viva dos meus dias. Uma noite prenhe de estímulos a tornar a vida mais explícita e mais inteligível aos meus olhos, já que aos olhos dos outros somos sempre uma imagem deformada por adivinhação, um rumor destemperado do nosso fundo. E é nestas horas de auto-observação meditativa que conto as demasias gastas com afinco em tudo a que entrego uma considerável parte de mim. E quanto desperdício, quantas gangas perniciosas encontro por arrumar nos contentores do absurdo. Travo lutas que não são minhas, combato moinhos dissimulados de gigantes, doem-me dores onde não cabem as medidas do meu corpo, venero mitos impossíveis, correspondo a paixões sem correspondência, espero milagres que não se concretizam, acredito em deuses que não existem. Enfim, um ror de insignificâncias falidas roubadas ao que realmente importa e onde procuro a minha própria significação. Mas não podia ser de outra forma. Se destas empresas não vier, um dia, uma revelação que me surpreenda a existência, é porque não fui digno dos seus dons ou porque lhes consenti sempre mais que aquilo que a vida me pedia.

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