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Microconto V: Bomba D

21/07/2013

Depois de muito tempo à deriva numa relação de gravidade zero, sentes, finalmente, o conforto doloroso da terra firme. Acabaste de aterrar no planeta solidão.
O mundo é um lugar difícil para ti. Provoca-te o prurido de uma blusa de lã: não te serve. Dá-te as náuseas de um ovo podre: passou da validade. Perdes o equilíbrio: as tuas perspectivas de felicidade coxeiam. Sentes falta de ar: os teus dons mais instintivos asfixiam num poço penitente de angústias.
Cortaste o cabelo. Perdeste dez quilos numa semana. Os teus amigos dizem, animados:
– Pareces um puto. Estás mais magro. Estás em forma. – Para eles, é tudo fácil. Acham que viraste a página. Mas dentro de ti ressona um velho gordo algaliado, bonacheirão, sem nenhuma vontade de mexer uma palha.
Podias fazer o que toda a gente faz: desatar em queixas, enterrar umas notas na conta de um psiquiatra que te doma o leão da revolta com o chicote da fluoxetina, deixar-te levar por ondas alternativas que fingem que tu és um tipo zen e despreocupado a quem não interessam as merdas fúteis que dão prazer a qualquer pessoa. Mas sabes que as ideias que trazes agarradas à tua cabeça são a coroa de espinhos que ninguém quer usar. Por isso, ouves metade dos teus amigos a lamentar-se de coisas sem assunto sem abrires a boca. Calas-te. Não dizes nada. Quem te compreenderá? Enquanto houver uma criança malnutrida em África, podes agarrar-te ao consolo da tristeza relativa. Há sempre alguém pior do que tu.
Na verdade, podias tentar arranjar mil e uma desculpas para a cama de pregos que estás a atravessar: foi o teu trabalho, foi o serviço cívico na associação de acompanhamento de idosos, foi a tua tese de mestrado bloqueada por um orientador que te ignorou completamente, foi a doença da tua mãe, que te pôs mais louco a ti do que a ela, foram as derrotas sucessivas do teu clube ao minuto 92, foi o filho da puta do aparelho nos dentes que te soterrou no piso menos 3 da autoestima.
Simplesmente, tu não és um desses tipos que se esfarrapam nas desculpas mais idiotas e descabidas. Tu páras e consegues pensar. Há uma Hiroshima e uma Nagasaki prestes a rebentar contigo e tu conheces de ciência exacta a razão do teu sofrimento:
Acreditaste, como um devoto de Fátima, numa certa ideia de amor durante demasiado tempo. Ensanguentaste os joelhos da tua ilusão em voltas intermináveis a esse santuário, esperando pelo milagre. Encarceraste todas as tuas células imperfeitas numa ideia patética e só tua de perfeição. Só que essa perfeição e esse amor que, em vão, procuraste, nunca aconteceram. Tens a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, a Bomba D explodirá. Por isso, começas de imediato a apanhar os destroços: durante os próximos tempos dedicas-te exclusivamente a ti. Ainda sabes o que isso é?

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