Archive for Setembro, 2013

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Liberdade poética

17/09/2013

Se eu fosse poeta
Todos os dias seriam
Maiores que a imensidão.
Todos eles teriam
Horas vagas a bater no coração.
Não haveria segundas-feiras
Nem as fainas rotineiras
A fazer do tempo prisão.
Nesses dias, abertos e livres,
Tomando as estrelas na palma da mão,
Teria nos sonhos os meus víveres
E seria livre, como os poetas são.

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A superfície profunda da amizade

17/09/2013

Dei-lhe a conhecer os marcos que lhe garantiam a inexpugnabilidade de uma superfície incomensurável do meu coração. A César o que é de César… Ao longo de trinta anos de faina existencial, tenho alanceado o espectáculo tumultuoso da minha existência empenhado em compreender os outros, de modo a poder entender nas sobras qualquer coisa de mim. E, nas alturas mais desassossegadas, consciente ou inconscientemente, foi ela quem mais próximo esteve de me dar a graça complacente da compreensão. É dos poucos amigos que poderá dizer o que sou sem recorrer às charlatanices da adivinhação. É tão medularmente feliz que, quando a encontro, somos, por contágio inefável, duas felicidades congraçadas: uma que é em toda a extensão da evidência, e outra que gostava de ser para além da expressão da aparência.

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Promessa

17/09/2013

Começo o poema com Esperança.
Se essa é a ponta da lança
Com que guerreio o dia-a-dia,
A resignação seria
Uma escandalosa traição
À firme condição
De homem natural.
E, por isso, na minha timidez,
Prometo versos de lucidez
Até final.

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Pátria ibérica

17/09/2013

24 de agosto de 2013. A cruzar a fronteira entre Portugal e Espanha, na ponte sobre o Guadiana. As fronteiras são as rédeas invisíveis de um povo. As nossas, fortificadas a medo ou a caudais de retraimento, moldaram-nos a pequenez. Uma pequenez que nos abriu à grandeza oceânica da nação, da imaginação e da História. Mas basta trasladar a nossa expressão ibérica para a outra estrema da linha imaginária que nos separa do lado castelhano da Ibéria para patentearmos a força do nosso génio na do génio vizinho. Uma leira do lado de lá, aqui, é um latifúndio, uma capela românica portuguesa não preenche a abóbada de uma catedral gótica espanhola, o que dentro de portas é rarefacção autêntica, fora delas é abundância monótona e repetida. Até a Língua falada parece português escaldado e sem peias a estalar na boca. Porém, é, simultaneamente, confiado no equilíbrio entre ambos os povos e com a desconfiança de um contrabandista que cruzo o recorte destas linhas fictícias a unir Portugal e Espanha. Fico sempre com um olho em Camões e ou outro em Cervantes.

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Saudades

17/09/2013

Colocou-me numa situação limite, mas desembainhei o gume do raciocínio imediato e creio que a convenci:
– Se se mudasse para o planeta Marte, o que acha que deixaria de mais valioso?
– Saudades e os meus poemas.
– E porquê?
– É que em ambos os casos, não haveria disputas engulhadas na hora de fazer as partilhas.

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Mais mar

17/09/2013

Nova tarde enraizado em mar e em salsugem. Mergulhado num calor de braseiro e lassidão, deslembrado de tudo, a ir e a vir na cadência das ondas, nem sequer os versos, solidários com sensibilidade de todos os instintos solitários, me fazem falta. A consonância pacífica das marés é suficiente para que a música dos poemas se cumpra naturalmente.

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Milagres públicos

17/09/2013

Eis o milagre imperdoável dos nossos dias: darmos aos políticos um palanque de esperança e vermos, depois, o céu que nos prometem afundado na perfídia movediça e desmesurada dos próprios egos. Confundem serviço com servir-se. Baralham de tal forma a realidade, trocam-nos de tal modo as voltas às convicções, que até o nosso desespero lhes serve de pretexto para se legitimarem na presunção ambiciosa da eternidade.