h1

Brincando na rua

10/12/2013

Cada qual traça um enredo para a vida à medida dos sonhos que tem. O meu foi criado na rua e, tanto quanto a sensibilidade e a memória mo consentem, foi nela que me perdi e agora me procuro sucessivamente. A rua era o meu lugar de Liberdade. Os meus pés eram o chão da rua, os meus olhos os postigos das portas de entrada das casas vendo quem passava, o tom da minha pele o pó que os carros sacudiam e os meus dedos a corrente de ar em voo rasante espalhando cócegas frias nos cabelos da minha mãe quando vinha do trabalho. Havia casas e pessoas novas na rua e eu era mais eu. Podia, finalmente, dissolver-me na banalidade das coisas, mesmo das mais belas, e, como elas, existir sem existir. Fazia parte da matéria física que se olha, mas não se vê. Eu era a respiração da rua. A rua não tinha de pensar em mim para que a minha vida inspirasse e expirasse. Estava dissolvido na rua. Depois, havia os da minha rua. Primeiro, o Vasco, meu irmão, o Vilson, os Pedros, o Carlos, o Fernando, o Nélson, o Nuno, o Tiago, o Celso. A seguir, quando mudei de rua, o Vasco, meu irmão, o Lince, o Chico, o Pedro, o Joel, o João, o Paulo, o Eduardo, o Rui, a Inês, as Anas, a Raquel, a Cristina, a Carmen. Eles eram tão rua como eu. Mas, depois, depressa demais, como se não soubesse que não se pode andar a mais de 30 por hora na rua, veio o tempo, o vizinho velho e chato que não gosta de crianças e fura a bola quando o jogo está empatado num empolgante 15 a 15 – quem marcar ganha.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: