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Destino de geógrafo

10/12/2013

Ninguém merece um destino assim! Sobretudo, se for geógrafo. Estrangulado entre as mesmas serranias vitais, agarrado às oscilações da sorte e do GPS, a ver o mundo projectado no ecrã de um computador e o tempo, areias movediças cada vez mais finas, a escoar-se em ampulhetas de vidro baço, é impossível fazer de conta e ser cego, surdo e mudo aos acenos da paisagem que trago oculta no entendimento. É escusado. Chega de fazer-me de morto ou de viver anestesiado por não sei que seiva nativa, enterrado em montes, compêndios de geografia, atlas, Google Earth, e a satisfazer-me com orelha de porco e morcela de farinha frita. Gosto desta terra, estou em íntima comunhão com ela, danço ao ritmo de cada estação, mas apertam-me cada vez mais estas serranias. Tenho mais lanhos na alma que o sienito deste chão. E já se sabe que água mole em pedra dura… Não! A verdadeira geografia do país não está na descrição dos calhamaços que vou devorando à sobreposse; está, sim, nas pegadas pátrias que me vão enchendo os pés de terra virgem. E bom, feito o desabafo, parto amanhã para Trás-os-Montes, onde vou enxertar à minha fisiologia onírica a infinda geologia lírica do lugar.

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