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Política no Largo dos Chorões

10/12/2013

Como se não bastasse a suficiência das migalhas que vou espalhando à saciedade pelo chão deste diário de maneira a não me perder no itinerário da vida, vi-me hoje estendido como uma peça de roupa surrada numa das praças da vila, junto de uns quantos concidadãos que honrosamente se dedicaram à mesma causa cívica. Tentei o possível e o impossível para furtar-me à montra pública, mas de nada serviu. Conformado, fiz das tripas coração e aguentei com a maior dignidade mais uma devassa infligida a mim próprio. Talvez a maioria dos retratados goste de se fazer ver a ver-se e a ser visto. E é justo. O mundo de hoje dá-se a conhecer por imagens e menos por palavras legitimadas em acções despretensiosas. No que me diz respeito, é verdadeiramente trágico ver-me exposto assim, aos nacos, de sorriso embalsamado, numa nudez vestida de lona ou desenhada num prospecto. Nudez tapada, de resto, na medida em que nunca será capaz de me traduzir a carne e o osso e muito menos descrever condignamente o cidadão à paisana que vive dentro de mim. Bem ensina Damião de Góis que os homens em mais nada mostram a fundura intrínseca dos seus pensamentos que nas coisas que escrevem. Ora quem quiser conhecer-me tem de ler a gramática terrosa que ponho nestas palavras, na férrea esperança de que nelas possam medrar e segurar-se as raízes humildes e genesíacas do povo anónimo a que pertenço.

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