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Crónica de umas crónicas

02/01/2014

Comecei hoje a ler mais um Livro de Crónicas do Lobo Antunes e comecei mal. Principia o primeiro texto com a especificação de uma data precisa. Um dia de verão, grande, como aquelas visitas inoportunas que vêm sem aviso, desarrumam ainda mais os esconsos da sala e vão ficando, ficando, sem pressa de ir embora. Um dia grande, de horizontes descampados, como uma imensa paisagem sem relevos. E o mal de dias assim é que nele tanto se podem desenrolar alegrias infinitas como se podem estender grandes prantos desmedidos. Tudo depende do lado de dentro dos olhos que lêem o calendário. Mas foi um livro oferecido por alguém a quem, à força da ternura escondida nas lágrimas e nos sorrisos, posso encostar a cabeça e dizer “mãe”, e é por isso que vou atravessar estas páginas com a mesma obsessão com que quero enfrentar as páginas em branco da minha vida: com a coragem de assumir como medularmente meus os sentimentos que me doem e fazem de mim esta existência empedernida que cada vez mais se desconhece a conhecer-se. E depois é esperar que a significação daquela data não seja mais uma intermitência interrogativa e possa, com o viajar do tempo, tornar-se num dia que passa por nós sem darmos por ele. Um dia de verão igual aos mais, grande e sem palavras. Grande como um ponto final nesta vontade sofrida de escrever.

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