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Microconto VI: O Amor no vidrão

02/01/2014

Caminhas pela rua, cinzenta como o céu, cinzenta como tu, que és cada vez mais feito de nuvens e do lixo abraçado aos passeios. Tropeças no atacador e afundas-te no chão. E enquanto esperas que o vento leve de um milagre almofadado te estenda a mão, ouves uma voz castigadora dentro de ti a dizer:

—Já está!

Agradeces à mania que fez com que a tua mãe, durante anos a fio, quisesse fazer de ti um patinador artístico apontado às medalhas olímpicas. E, apesar de teres as mãos ocupadas com o fundo roto das algibeiras dos teus pensamentos, agarras o equilíbrio com os dentes, como se vencesses a gravidade à dentada.

Ris-te dessa voz a rir-te de ti. Não deixas de reparar no virtuoso passo de dança que acabaste de dar. Tu, um pé-de-chumbo. Senhor da delicadeza de um bulldozer num campo de lírios, terias deslumbrado qualquer baile de finalistas com aquela tontura elétrica em espiral a vacilar-te nas pernas. O problema é que o teu baile de finalistas foi há quinze anos, e tu, dobrado sobre as tuas memórias, levemente encostado ao vidrão, enquanto atas os atacadores, concluis: estás parado exatamente no mesmo ponto em que estavas há quinze anos. Continuas sem saber encantar com as palavras, continuas sem saber dançar. Mesmo que soubesses, continuas sem o par certo para ires flutuando sobre a superfície das melodias que a vida te vai consentindo quando estás desprevenido. E continuas sem saber patinar, não porque a tua mãe nunca teve dinheiro para te comprar uns patins, mas porque te deixas deslizar sem abrires os braços, porque te atiras de cabeça, sobes como um balão e não te importas com a aterragem. A velocidade dá-te altura, permite-te ver os sonhos de cima, respiras um ar mais fresco. Finalmente, vês os dias depois das horas. Não sabes como travar, mas também não temes o impacto. Dizes:

– Depois se verá.

Não é que não tenhas tentado aprender. Patinaste em cascas de banana e melancia sem ter partido uma perna, um braço, uma costela, a cabeça, só o coração; tentaste dançar nas festas dos bombeiros voluntários, sem nunca ter acertado o passo, só pisadelas no peito; arriscaste escrever versos que apenas deram mais profundidade ao ridículo e paragens fantasma no teu miocárdio. O caso também não é que não sintas nada. Sentes. Mas sentes como os vulcões: tremes por todos os tendões, estoiras de amor incandescente, queimas tudo à tua volta, os amigos, a família, tudo o que se possa meter à frente dos piroclastos da paixão com palavras prudentes:

– Olha que te vais aleijar…

A seguir à erupção ficas sem saber o que fazer com a cratera desoladora do teu desespero. Foi assim com a melhor amiga da tua prima. Riu-se de ti quando lhe deste aquele ramo de flores murchas polvilhadas de alergias. Foi assim com a loirinha cheia de sol no cabelo e raios de luz nas pestanas. Gabou-te os versos, mas ofendeu-se ao ler que querias vê-la através do brilho lânguido dos teus ósculos, porque, apesar de usar lentes de contacto, via muito bem. Foi assim com a filha dos emigrantes, dois anos mais velha que tu, a quem deixaste para sempre uma marca profunda da tua paixão furiosa nos nós dos dedos dos pés no segundo em que a puxaste para dançar uma música do Dino Meira na romaria de Verão. Foi assim com todas aquelas que não conseguiram comover-se com a tua vulgaridade, com o teu jeito desajeitado, com a forma mais pura com que lhes estendias uma passadeira corada de sorrisos sob os seus pés. E elas a pisar o vidro do teu sorriso, a fazer do teu coração os cacos dentro do vidrão junto a ti.

Enfias a cabeça para dentro desse recipiente cheio dos cristais reles da tua dor. Quase sufocas no azedo baço do teu desespero. Vasculhas cuidadosamente, com a ponta do olhar, para não te cortares, as sobras partidas do teu coração. Consegues ver cadáveres de garrafas de Gramujeira a sangrar tinto misturados a poliedros angulosos não correspondidos nas arestas uns dos outros. Achas impossível voltar a dar a configuração fechada do teu punho àqueles milhares de cacos desconjuntados.

Então, reparas: no ecoponto onde te encontras estão o papelão, o ponto destinado às embalagens de plástico e um último vaso gigante, reservado aos indiferenciados. Lá dentro, os restos de outros corações destroçados, de outros sentimentos desperdiçados, de outras paixões fora do prazo, de sonhos novinhos em folha dos quais ninguém soube tirar partido, simplesmente, porque não traziam manual de instruções.

Um ar de humildade cobre-te. Lembras-te da mentirinha que inventaste para ir ver a final da Liga dos Campeões ao café no dia de aniversário de uma por quem te apaixonaste num pestanejar, da puta da SMS em que o sujeito da frase não coincidia com o destinatário, da tua falta de paciência para com as inseguranças delas, quando gabavas os petiscos da tua mãe. Admites-te responsável por algum desses resíduos de vidas. Mas ficas impassível. Para ti, o sofrimento que, sem querer, infliges aos outros, significa o mesmo que o teu representa para quem involuntariamente to inflige a ti: meras trivialidades.

Enfrentas a estrada da realidade. Lês, gravada a corretor branco no poste do semáforo, fechada num perímetro de cupido, aquela conta de somar o teu nome ao nome da miúda que te consentiu a magia volátil do teu primeiro beijo. A tua primeira operação errada. Casou, teve três filhos – uma menina, um menino e o marido – sem pôr nada em causa, como a mãe dela e a tua fizeram. É dona de casa e eles donos da vida dela. Vais começar a dizer, como que a desconversar:

– Ah, o amor…

Olhas para trás. Não há problema. Dás graças a Deus: ninguém viu. Caíste. Vais voltar a cair. No amor, nunca nos vemos a perder o chão. Muito menos quando não sabemos patinar sobre os cacos intrincados do nosso coração.

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