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Regresso a casa

02/01/2014

Depois de cinco dias retemperados em Lisboa, regresso a casa. Mas precisava de prolongar esta massagem do esquecimento por, pelo menos, mais uns cento e setenta e cinco. Que os dedos citadinos do deslumbramento fossem penetrando suavemente em círculos lentos nas contraturas emotivas até que este corpo macerado por dores fantasma deixasse de o ser, afinal. Que chegasse a um par de coordenadas precisas entre aquilo que sou, que é de Monchique, e aquilo que sonhadoramente queria ser, que é daqui, e que o mar de dúvidas e contradições em que vivo balanceado serenasse em ondas descansadas. Mas é um regressos casa. E o sítio de onde somos só muda de lugar de duas formas: ou pelo músculo cataclísmico da geologia ou porque os olhos surpreendidos ou reprovadores que o reencontram não são mais os mesmos. Ora este meu regresso é animado por uma alegre melancolia. Qualquer coisa parecida àquela que sinto quando saio a assobiar do quarto pela manhã fora e a minha mãe me diz:
– Lindamente canta o rouxinol pela aurora!
E só eu e ela sabemos que o silvo cónico que me sai dos lábios é apenas mais uma maneira silenciosa de livrar-me do desespero.

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