Archive for the ‘Geografia’ Category

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De Lisboa até à Lua

18/04/2013

A reter panoramas retentivos no Miradouro da Graça, a desfiar as barbas da História na paz branda do Tejo, em Belém, a deixar o relógio desandar em horas devolutas à sombra luminosa do jardim da Gulbenkian, ou, simplesmente, a receber calhamaços de instrução no auditório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, uma visita a Lisboa, para mim, é sempre uma correcção magnética à inexorável declinação dos rumos provincianos que vou desenhando na pátria. Vou e volto, e quando me perguntam de onde venho, apenas me apetece responder:
– Da Lua.

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GPS emotivo

12/12/2012

Disse-me hoje uma pessoa amiga, quando me viu de receptor GPS nas mãos, a descarnar as ossadas ao ofício:
– Você, com essa maquineta nas mãos, faz maravilhas! Não se perde nem deixa que ninguém se perca!
Espantosamente, mal sabia ela que, apesar da minha investidura académica no ofício de Estrabão, não obstante as modernas virtudes requintadas dos aparelhómetros, tenho passado a vida inteira à procura dos pares exactos de coordenadas que me levem à acuidade afectiva de um semelhante, de um amigo, de Deus, e sinto-me sempre desnorteado, a perder o rumo, numa trágica desorientação.
E se eu lhe tivesse respondido isto, saberia ela georreferenciar-me em terra firme, fora do mar picado da incompreensão?

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Paixão telúrica

09/12/2012

Este meu caso dissonante de esgotar o sentimento em cada investidura humana e só saborear a razão quando vejo o fundo ao copo, ou esta consabida preferência por paisagens duras e agrestes, por rudezas maninhas desmascaradas de sumptuosidades vegetais que durante o ano inteiro escondem as vergonhas ao chão, talvez não seja nem mais nem menos que o prolongamento das paixões que me convulsionaram a adolescência. É que depois de cada declaração, após cada diálogo íntimo, a seguir a cada palavra escrevendo amor nos bilhetes que, secretamente, vou remetendo à vida, fico a monologar silêncios, adivinhando a resposta negativa que trará a confirmação do desencanto.

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O gigante anão

09/12/2012

7 de dezembro de 2012, a meio caminho entre o Algarve e Lisboa. Agora que palmilho um pedaço mais do meu Portugal concreto e fisiológico, observando os córregos transbordantes de uma graciosidade hemodinâmica, libertado por esta planície alentejana que, mesmo no restolho do lusco-fusco, me aclara todas as perspectivas de imensidão numa paisagem antropomorfa, volto novamente àquela devoção panteísta à geografia pátria a que ontem aludia. E tenho que dizer-lhe qualquer coisa do descampado deste banco de trás, de onde recebo a vaia prolongada no reflexo da vidraça. Assim me impelem o instinto de namorado e a boa educação.
Se na convivência humana me sinto sempre a caminhar em bicos de pés sobre um arame adelgaçado de aniquilações, na envolvência exuberante do natural posso ser o pouco que sou serenamente, aberto a um mar raso de possibilidades profundas, sem condicionalismos de nenhuma ordem. Só nos rios barrentos e indisciplinados tenho a íntima certeza de que também trago terra no sangue, nervos torrenciais no (mau) génio e aluviões fecundos na imaginação. Assim deslumbrado e vivo, entre serranias e planuras, ora pareço um gigante, ora pareço um anão subindo e descendo freneticamente os desníveis disformes que o destino me consente.

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Homem sismo

21/11/2012

Sempre gostava de ver os estremecimentos insofridos que por aqui vou despejando registados no rasto de uma linha trémula sobre o papel de um sismograma. Perfil ultra-sensível subindo e descendo consoante as desafinações inquietas dos dias e, mormente, de mim mesmo, quem o lesse não encontraria escala emotiva onde balizar todo o sofrimento dentado. Richter sentir-se-ia o agoirento responsável pela magnitude dos abalos, Mercalli pelos escombros avivados pelo andar destrutivo do tempo.

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A minha Picota

19/11/2012

Ontem, o mar, hoje, a montanha. Desanimado, meti-me pelos cerros acima até chegar ao topo da Picota, onde alívio agora a minha aflição desiludida seguindo religiosamente a prescrição de uma dieta geológica à base de micas e feldspatos. Perdido como um cão apavorado pelo rebentamento da pólvora, tinha de ser aqui, no cimo desta penedia nua, no centro de uma pobreza cristalina, que eu podia encontrar-me na tradução física exterior dos meus calvários interiores. Uma alma solitária, atribulada, purulenta e em carne viva, submissa à realeza de uma mole titânica, também ela descarnada de revestimentos, exercendo um domínio imperial sobre a restante paisagem estendida a seus pés. Lado a lado, um vulcão de lava eruptiva presumida e um vulcão de lava emotiva reprimida a compreenderem-se nos silêncios gretados das pedras. Exageradamente, tanto tenho ampliado com a lupa dos sentidos a rudeza inexpugnável destes rochedos sieníticos, que dou por mim a desejar ser um aditamento mineral da sua fácies, apenas posto a nu nas areias estéreis de uns míseros poemas cantados às erosões da vida.
Fez-se tarde. Um hálito frio de nortada lambe tudo e barbeia-me a cara em restolho. Lá em baixo, na vila, charutos de fumo acendem-se sobre os telhados, esbatendo a nitidez às pregas da paisagem. Chama-me a lareira doméstica. Deixo de ser espectador enfeudado à Natureza e desço de novo até mim; até esse vale de lágrimas onde serei outra vez serras e serras de tristeza agreste até perder de vista.

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Bucolismo rude

14/11/2012

– Aquele poemazinho sobre as vistas do talefe da Fóia, hein!? Aquilo é que é bucolismo!

– Pois, por mim, é tudo isso que ele não é! – protestei eu, inconformado.

Nunca, por nada, fui bucólico, idílico, dado a harmonias campestres que só através do génio de um Eça me cabem nos mapas literários e vivenciais. Um chão que só é capaz de dar leiras de couves, sem gangrenas, que se não revela em carne e osso, com as chagas avivadas pelo sal agreste dos elementos, não me atrai.
A mando do ofício, simplifico a realidade em planisférios, dou-lhe escalas e pormenores, invento fronteiras. Convenções euclidianas logo a seguir transpostas pela letra redonda da poesia que, nos seus espantos, nas suas angústias, nas suas fantasias, tudo concede e imortaliza como um Globo em permanente rotação ao redor de um eixo de inquietações, e em revolução em torno dos Sóis do amor e da liberdade. É o geógrafo a levantar paredes e o arremedo de poeta a derrubá-las. Dois mundos baralhados numa  comunhão fraterna. A ambos, une-os a ideia universal de que o Homem não o é sem o rasgo definidor do espaço. O que se vê e o que se intui. O espaço que o enquadrou na superfície do passado e o espaço que o há-de enquadrar nos lugares futuros.
É por isso que, ao arregalar os olhos nestas paisagens nativas, se me insinua na retina a condenação telúrica de deuses implacáveis a impor-se a calmarias luxuriantes. Por mim, toda a serrania é violência. Uma violência prodigiosa a dar corda aos sentidos.
Olhem, com olhos quiromantes, a fundura dos abismos engolindo a ostentação sublimada e vejam ao menos as forças ciclópicas das mãos que dobraram o chão. Ouçam o sôfrego protesto torrencial dos regatos a cantarem tragédias. Sintam tremer o chouto gigantesco de homens anónimos galgando degrau a degrau a escadaria de socalcos no volume dilatado das encostas. Não! Tudo aqui é violência furtiva, virginal, bela. Um braço de ferro em equilíbrio; um corpo a corpo pegado entre Homem e Natureza feito pela mão da raiva, pelo músculo do sofrimento, pelo nervo da erosão e pela seiva da pobreza a troco de papas de fome e garrochos de medronho. Para contemplar semelhantes paisagens na sua fatídica inteireza e significação, é preciso que o peito não expluda a dimensioná-las no espírito. E nem todos trazemos calos vivos na lembrança, que nos permitam sentir tamanha dureza por baixo de tão pacificada beleza.

Fotografia: Laura Mexia