Archive for the ‘Meteorização Mental’ Category

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Mensagem

06/08/2013

Deixar andar o tempo.
Contá-lo é juntar desperdícios.
Sem dar atenção aos indícios,
Vivo o pêndulo de cada instante
Como se estivesse diante
De mim e de Ti
Num baloiço de negação.
A perguntar se estavas aí
E a fingir que não ouvi
O teu silêncio dizer “não”!

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Contemplação

05/08/2013

Espero pacientemente.
Mesmo que me não digas se vens.
É apenas porque sei que tens
A mesma razão intuída
No poder contraditório do amor.
Espero o tempo que for.
Porque até a paixão mais arrefecida
Tem escondida
Uma fonte secreta de calor.

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Percurso

30/07/2013

Ah! Espasmos da inquietação.
Pulsões fortes na razão
Abalada por dúvidas constantes.
Versos cansados e impantes
Como única companhia
Em cada metro de caminho.
Noite e dia, adivinho
Os mesmos sinais de rebeldia
A dizer que vou sozinho.

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Microconto V: Bomba D

21/07/2013

Depois de muito tempo à deriva numa relação de gravidade zero, sentes, finalmente, o conforto doloroso da terra firme. Acabaste de aterrar no planeta solidão.
O mundo é um lugar difícil para ti. Provoca-te o prurido de uma blusa de lã: não te serve. Dá-te as náuseas de um ovo podre: passou da validade. Perdes o equilíbrio: as tuas perspectivas de felicidade coxeiam. Sentes falta de ar: os teus dons mais instintivos asfixiam num poço penitente de angústias.
Cortaste o cabelo. Perdeste dez quilos numa semana. Os teus amigos dizem, animados:
– Pareces um puto. Estás mais magro. Estás em forma. – Para eles, é tudo fácil. Acham que viraste a página. Mas dentro de ti ressona um velho gordo algaliado, bonacheirão, sem nenhuma vontade de mexer uma palha.
Podias fazer o que toda a gente faz: desatar em queixas, enterrar umas notas na conta de um psiquiatra que te doma o leão da revolta com o chicote da fluoxetina, deixar-te levar por ondas alternativas que fingem que tu és um tipo zen e despreocupado a quem não interessam as merdas fúteis que dão prazer a qualquer pessoa. Mas sabes que as ideias que trazes agarradas à tua cabeça são a coroa de espinhos que ninguém quer usar. Por isso, ouves metade dos teus amigos a lamentar-se de coisas sem assunto sem abrires a boca. Calas-te. Não dizes nada. Quem te compreenderá? Enquanto houver uma criança malnutrida em África, podes agarrar-te ao consolo da tristeza relativa. Há sempre alguém pior do que tu.
Na verdade, podias tentar arranjar mil e uma desculpas para a cama de pregos que estás a atravessar: foi o teu trabalho, foi o serviço cívico na associação de acompanhamento de idosos, foi a tua tese de mestrado bloqueada por um orientador que te ignorou completamente, foi a doença da tua mãe, que te pôs mais louco a ti do que a ela, foram as derrotas sucessivas do teu clube ao minuto 92, foi o filho da puta do aparelho nos dentes que te soterrou no piso menos 3 da autoestima.
Simplesmente, tu não és um desses tipos que se esfarrapam nas desculpas mais idiotas e descabidas. Tu páras e consegues pensar. Há uma Hiroshima e uma Nagasaki prestes a rebentar contigo e tu conheces de ciência exacta a razão do teu sofrimento:
Acreditaste, como um devoto de Fátima, numa certa ideia de amor durante demasiado tempo. Ensanguentaste os joelhos da tua ilusão em voltas intermináveis a esse santuário, esperando pelo milagre. Encarceraste todas as tuas células imperfeitas numa ideia patética e só tua de perfeição. Só que essa perfeição e esse amor que, em vão, procuraste, nunca aconteceram. Tens a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, a Bomba D explodirá. Por isso, começas de imediato a apanhar os destroços: durante os próximos tempos dedicas-te exclusivamente a ti. Ainda sabes o que isso é?

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Duplo

17/07/2013

Passou uma vida ao meu lado.
Para onde ia, não sei.
Foi tão pouca a atenção que lhe dei,
Que o movimento me pareceu baldado.
E agora, já recordado
Dos ares de desejo
Que esse vulto tinha,
Finalmente, vejo
Que aquela vida era a minha.

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Hemorragia íntima

14/07/2013

Estancar a solidão com livros. Compressas sobre compressas de papel a conter a hemorragia de incompreensões. Hoje, foram mais dois. E posso agora, finalmente, sair de casa, empolgado e de alma desinfectada. Se, no café, não houver um amigo para arejar a ferida, amanhã, volto a abrir um dos muitos volumes que tenho tido por companhia e mudo o penso.

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Horas extraordinárias

14/07/2013

Dia esgotado a esticar a vida cívica até horas que deveriam ter tido uma elasticidade mais apressada. Aqui, no sarcófago, são os os mesmos que se queixam no silêncio fechado de sempre: os clássicos que ainda não li, os autores por conhecer, os versos escanzelados roubados às teclas, enfim, tudo por fazer. Viver é, realmente, ir adiando a própria vida.