Posts Tagged ‘Carnaval’

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Carnaval

09/02/2013

Cortejo carnavalesco de crianças pelas ruas da vila. Um somatório de sonhos individuais congregados num rio intenso de cores e entusiasmo, folia e travessuras, por onde também desfilei há anos, trajado de palhaço. Uma torrente animada de possibilidades a inundar-me a alma de esperança em ver tantos sorrisos a desaguar no mar alto do futuro. A comandar o caudal infantil, um carro alegórico de onde escorria uma música exótica cujo tom, baixando uma oitava em cada metro, se esbatia lentamente nos drenos alongados da distância e da multidão, e chegava num murmúrio menos viçoso aos de trás. Talvez aqui esteja a alegoria mais significativa do grande carnaval da vida. Nascemos como rios impetuosos de força e de grandeza, damo-nos a todas as sinfonias e a todas as fantasias do porvir. Depois, as secas do tempo, os açudes sociais e os transvazes do carácter afastam-nos cada vez mais da nascente, e já só conseguimos lavar as desilusões que infligimos a nós próprios e aos outros pela música fantasiada que trazemos agarrada à lembrança.

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Cafarnaum

17/02/2010

Um gigantesco cafarnaum. No barulho das palavras que podem consagrar os dias de Carnaval em Monchique, estes são os termos que melhor retratam a folia, salsifré e serrabulho que por aqui se vivem. É sair até ao Largo só para ver:

Os ensolapados em trapos e cabeleiras postiças que, tresandando a naftalina, empestam o ar com a respiração das roupas velhas asfixiadas durante décadas nos fundos dos baús. Vêm juntos, em pequenas joldas. Os valentões e valentonas vestidos de quase total nudez, engalinhados com o frio da rua, mergulhados numa apoplexia delirante quando toca a cacafonia bizarra que é um apelo à descoberta do «pai da criança». Há homens vestidos de matrafonas e matrafonas vestidas de homens. Há os embezerrados moralistas, que não se vestem de nada, dizem que não gostam do carnaval mas não descuram a ocasião para apanharem tachadas de caixão à cova,  arraigados aos balcões de vendas, cafés e bares.  Etilizados em iguais doses, há outros, disfarçados, que cantam não sei o quê com vozes de cana rachada, largando asneiredo em cada eco. E há as calhandreiras a deliberar  sobre as «figuras» dos outros. Há crianças birrentas, aparvalhadas com sono. Onde exista música e um estrado, amarfanha-se a multidão num saco de gatos e todos dançam. Há os de caras pintadas, que as vai lavando o suor da pândega, à medida que o tempo passa. E, no fim da noite que é começo do dia, são os rostos da caliça e do betume estalado em mais um Entrudo que se gastou.

Há, depois, tudo o resto: as máscaras superiormente esgalhadas, personificações, a sátira e o bom humor. Há, não raras vezes, o famigerado «Mar de Cacetadas». No carnaval de Monchique nunca há prejuízos porque este não quer ser brasileiro. É aquilo que foi e será sempre: um gigantesco cafarnaum.