Posts Tagged ‘cristal’

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Polaroid

17/09/2013

Uma barrela emotiva que me deixou como se tivesse acabado de vir de um campo de colmeias. Estávamos a salvo dos narizes bisbilhoteiros, a interlocutora era de confiança e o espaço tresandava apenas a silêncios e ao húmus expressivo onde tem medrado toda a nossa intimidade. E antes que a máscara desesperada de crispação e amargura que lhe apresentava me ficasse irremediavelmente inculcada na cara para todo o sempre, pondo em causa tudo quanto nos faz dignos do poder superlativo da amizade, deixei-a cair e a confissão quebrou-se como cristal no chão sensível das nossas ilusões:
– Sabe, o meu grande problema é que eu sou um romântico! – E como em tudo na vida, acabei sem saber se procedi bem ou mal. Parece, sim, que fiquei mais perto de mim mesmo e mais longe do alcance das minhas frustrações.
Não há como ocultá-lo. O verdadeiro fundo da nossa identidade revela-se no calor instantâneo dos pudores mais desinibidos. Ao cabo e ao resto, funcionam como a fotografia do cartão do cidadão: só temos uma hipótese de mostrar o que verdadeiramente somos. Na impossibilidade de lavar as mãos perante as consequências das palavras e dos gestos, ou ficamos bem, ou ficamos mal. Se ficamos bem, pois muito bem. Se ficamos mal, não nos resta outro remédio senão pedir desculpas sinceras a todos aqueles a quem diariamente apresentamos as veras da nossa identificação.

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Traído na traição

23/07/2012

Quanto mais atafulhado em montes de não sei que maciço desespero, de despeitada indignação, de surda revolta, mais me apetece pegar neste caderno e prensar a viva voz de certos desabafos impulsivos entre linhas rasas de serenidade. Acontece que nem sempre me dou à claridade dessa disciplina contemplativa e tudo me sai revelado ao invés. Dou a volta ao mundo a arredondar a fraternidade das melhores amizades; sou incorrigível na lealdade aos que, denodadamente, mais admiro; aposto a seiva pessoal no matagal colectivo. Mas, tolhido por uma consciência impulsiva que transfigura a inexpressividade crónica das decepções numa tempestade agónica de crispações, já não há deferência ou ouvidos compreensivos que coincidam com as minhas razões. Tudo me é imperdoável num mar de aparências. Sobretudo ao cristal dos meus próprios olhos. A franqueza parece rudeza, a rebeldia teimosia, a exigência intransigência. A torrente temperamental rebenta o dique do pudor, mas não esvazia toda a sinceridade sedimentada nos fundões da consciência. Na roga das confidências, fica sempre uma porção de engaço por vindimar. É essa a cicuta que me atrai à cilada da minha identidade. Se digo tudo, traio os outros, se não digo, traio-me a mim.