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Cumpriu-se a profecia

19/05/2009

Uma profecia desenvolvida há pouco menos de um mês, aqui no Terra Ruim, dava poucos dias de vida ao Minipreço de Monchique. Hoje, pude constatar que as sagradas escrituras da Alegoria da Cafurna  se encontram, finalmente, cumpridas.

Esta manhã quando passei pelo minipreço, já não levava uma lista de compras, pretendia apenas um pacote de sal fino para espalhar por cima de umas batatas fritas. Voltei a chegar tarde ao supermercado e, desta vez, não fui a mais nenhuma superfície comercial. Preferi comer batatas fritas à minipreço, isto é, sem nada a acompanhar.

A hora em que por lá passei (11h da manhã), já nem deu para aproveitar as promoções de liquidação total. Terei perdido a oportunidade de ficar com o último Kg de nêsperas, ou com uma das 50 embalagens de Calgon anti-calcário que nunca foram compradas desde a abertura do supermercado. É que este é um produto que em Monchique ninguém utiliza (a água de Monchique possui um insignificante teor em calcário).

À porta só encontrei isto:

Fotografia: Instalações do Minipreço - Monchique. Rua Serpa Pinto.

Fotografia: Instalações do Minipreço - Monchique. Rua Serpa Pinto.

Pela mensagem escrita na cartolina, o encerramento não será definitivo, a bem da população em geral, das batatas fritas, que ficam melhor com uma pitada de sal, e dos apreciadores de conguitos, gomas (em particular aquelas azul bebé) e M&M’s XL.

Todavia, há que equacionar que a palavra remodelação pode ainda significar a conversão daquele espaço noutra coisa qualquer, com funções algo distintas daquelas que desempenhou até hoje. Dada a próximidade ao estabelecimento da família “Anibal Peixeiro” atrevo-me a especular uma possivel deslocação de instalações desta conceituas empresa monchiquense, uns metros mais para a frente.

Nas agora prateleiras carregadas de nada, ainda hei-de ver sacas de carvão ao lado de sacas de serrapilheira aprisionando caracóis, que por seu turno se encontram ao lado de grades de cervejas encostadas às rações para porcos, imediatamente ao lado da farinha Predilecta. Estas estão paredes meias com as alfaces, que tocam de leve nos adubos que se acomodam junto às pipas de vinho a martelo.

Veio-me à ideia agora mesmo, não sei como nem porquê, que retiradas dali as estantes, aquele espaço talvez desse um bom ringue de hoquei em patins, ou mesmo uns calabouços da GNR. Deixava-se lá estar as prateleiras, garantindo desta forma a melhor arrumação dos prisioneiros,  e, no local dos preços, colocava-se os anos que restavam para que estes cumprissem a totalidade das penas imputadas em julgamento. Sei lá, digo eu…

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A alegoria da cafurna

30/04/2009

[Assim antecipo, por um dia, o post que visa homenagear todos os trabalhadores da minha terra, em particular os que atravessam condição socioeconómica delicada].

Alguém me consegue explicar porque é que o supermercado minipreço, localizado na Rua Serpa Pinto, em Monchique, ainda continua aberto?

O cenário, dentro daquele espaço, é altamente confrangedor. Entrei com uma lista de compras, saí moído pelo vazio das prateleiras e com as compras por fazer. Aparenta ter sido, em Monchique, decretado recolher obrigatório, em razão de um furacão (coisa pouco provavel à nossa Longitude), ou de um conflito armado.

Em último e mais provável caso, ter-se-á instalado uma onda de receio face aos previstos efeitos pandémicos da Gripe Suína (Mexicana), e todos, antes de mim, se precaveram para uma possivel quarentena, ceifando as prateleiras de tudo o que ali exisitia, abandonando-as à insignificante companhia dos papéis, agora inúteis, sinalizando os preços de cada coisa .

Prefiro, no entanto, avançar com uma explicação mais elaborada, mais lírica, mais filosófica. Numa palavra, mais confortante. O minipreço, despido de géneros alimentares e outros produtos de primeira necessidade, não é mais que a transposição comercial, para os dias de hoje, da aclamada parábola de Platão, a Alegoria da Caverna

Quem vai à cafurna em que se converteu o minipreço, terá atingido finalmente o domínio das ideias, libertando-se assim da caverna inusitada que foi este supermercado, ainda nos tempos (há pouco mais de um ano) em que se chamava Sol & Serra, com uma imensidão de coisas tangíveis amontoadas pelas prateleiras, sombras que tomavamos como reais, criadas por artefactos de ilusões.

Estou confuso. Agora, o mundo ilusório e nebuloso das coisas sensíveis, que me fez estourar rios de cêntimos em pizzas, gomas, pacotes de Conguitos e M&M’s xl, ficou derradeiramente para trás. A dialéctica proporcionada pela alegoria da cafurna, fez-me então alcançar:

  1.  A verdade e o conhecimento absolutos: o minipreço tem os dias contados;
  2.  As portas para o mundo exterior: vou ter que voltar a comprar gomas e conguitos mais caros no Alisuper ou noutras superfícies de Portimão;
  3. Aquilo que mais há para venda na cafurna minipreço, é de borla e ninguém compra, pelo que se acumulam os stocks: tristeza, desilusão e ar por entre os corredores de prateleiras destituídas de matéria;

O pior de tudo, são as pessoas que por ali (ainda?) trabalham, em breve vítimas das ilusões criadas pela ganância de artefactos materiais, priosioneiras duma cafurna sem reflexos chamada desemprego.

Hoje, ao olhar para aqueles seres humanos, lembrei-me da Alegoria da Caverna, mas também do conto de Manuel da Fonseca, Maria Altinha:

«Pareciam Condenados».